Malefícios da política de evento no teatro

Uma política de realização pontual ou curta carreira, na vez de uma actividade de continuidade no teatro é um dos malefícios que mais tem perturbado uma vida teatral normal.

Uma política de eventos, de realização pontual ou curta carreira, na vez de uma actividade de continuidade no teatro é um dos malefícios que mais tem perturbado uma vida teatral normal. Não é, sequer em termos de investimento público, aceitável que uma estrutura de teatro com o chamado “apoio sustentado” para dois ou para quatro anos realize duas produções anuais, quando não uma só, de cada uma fazendo seis, cinco ou quatro apresentações. Mas não é invulgar. A norma que seria de esperar, era que fossem duas ou três ou quatro distintas produções, mas sobretudo de cem, oitenta ou cinquenta apresentações que fossem anualmente. Isto percebe-se logo como coisa medonha se, apesar do ridículo das verbas dos financiamentos, dividirmos, por hipótese, cento e vinte mil euros anuais por seis representações que sejam: temos um custo por sessão de vinte mil euros. Não é curial. Sobretudo porque é a um universo tão reduzido que, nestas circunstâncias, o teatro chega, que se torna numa mera entropia do próprio investimento.

Mas, em contrapartida, se fizéssemos aqui as contas, o que é fastidioso e deslocado num artigo de opinião, seria de arrepiar o que fica para uma produção, mesmo tão escassa, mesmo com esses cento e vinte mil euros. Estamos no domínio do trágico-patético. Por isso, dificilmente se consegue produzir um espectáculo sequer com meia-dúzia de actores e as remunerações, precárias e intermitentes, significam no final do ano, em termos líquidos, menos do que um salário mínimo. Por isso, a promoção não atinge um universo populacional que se possa falar de qualquer tipo de captação de públicos. Por isso os cenários são paupérrimos. Por tudo isso, o número de espectadores é escasso. E entramos numa ‘pescadinha de rabo na boca’, de onde é quase impossível fugir. Por isso há muitas ‘reinterpretações’ dos clássicos, mas é difícil ver um Shakespeare, um Sófocles, um Molière, um Tchécov ‘normal’, com as personagens todas…

Mas se a alguns poucos grupos isto serve, porque para eles o teatro é um fait-divers e uma feira de vaidades onanistas e de profissionais só fica o nome, uma grande parte, quiçá a maioria, preferiria que fosse de outro modo. O que o impossibilita e faz perdurar as reduzidíssimas verbas é uma política de evento decretada pelos programadores e a ausência de salas para a realização de um trabalho continuado. “A ineficiência da pulverização de verbas para o teatro”, artigo que escrevi antes deste, não só agrava, como reitera e é uma das causas, além de consequência, para a predilecção por uma política de evento. E os grupos, sem salas próprias, sem equipamentos de luz e som, sem dinheiro, ficam reféns dos programadores. E os programadores são reféns, ou mandantes, deste rapto do público das salas.

O velho empresário Vasco Morgado deparava-se, por vezes, com fracassos de bilheteira. Isso é inevitável num ‘objecto de consumo’ de curta duração, como o é o teatro, mesmo se meio ano em cena. Nessas ocasiões, muitas vezes o custo de manutenção do espectáculo em exibição era bastante superior à receita obtida. Isto sem contar que o investimento inicial não era sequer amortizável, quanto mais lucrativo, que é a finalidade do sector do teatro comercial. Espantados com a aparente teimosia, os amigos perguntavam-lhe porque não retirava de cena o espectáculo. Sábio do negócio, explicava que só quando tivesse outro espectáculo pronto porque “as salas precisam-se aquecidas”. Do mesmo modo que é sabido que uma montagem no West End só mesmo ao fim de um ou mais anos tem retorno de lucro para os investidores.

Porém, deixando de parte o teatro comercial, que só veio ao caso para demonstração de uma evidência, debrucemo-nos sobre as consequências culturais disto. Não há sequer a possibilidade da “criação do hábito” de que Garrett falava para fazer do teatro “um grande meio de civilização”. O que há é a continuidade da frase de Garrett: “mas não prospera onde a não há”. Só uma oferta regular, continuada, de carreira, permite captar públicos, fixá-los, alargá-los e promover a sua formação (de massa crítica). Esta política de eventos pode encher o olho, uma vez mais, com expressões aritméticas. No mais ela é um esforço financeiro sem qualquer repercussão na fruição e criação de massa crítica. A política de eventos mata a formação de públicos, rarefaz as verbas (mesmo as já pulverizadas) e é um embuste encoberto por uma ‘folha de serviços’ de muitas apresentações. Serão muitas, sim, mas são esparsas, dirigidas a ‘ultra-nichos’ de públicos, repetitivos, e, pior, de forma inerte, sem dinâmica para promover o seu alargamento.

Isto não pode ser a regra. Com dinheiros públicos não pode mesmo. Tal opção não é compaginável com o que se espera ser a vocação principal dos apoios estatais; nem tão pouco como opção principal para a programação das salas. Que certas salas tenham por natureza o acolhimento de curta duração, como a Casa da Música não me choca. Faz mesmo parte da sua razão de ser e é importante que, desse modo, não só possamos ter oportunidade de assistir à prestação de artistas internacionais ou, nacionais que sejam, de grande rotatividade por diversas salas do país e/ou do Mundo. Mas por excepção e não por norma para a chamada Rede de Teatros e Cineteatros. E o que se adivinha nas políticas para esta área, da parte do MC, não responde à necessidade de inverter isto. Mesmo considerando que – e positivamente – apela à disponibilização das salas para estruturas locais, a continuidade de verbas escassas e espaço de calendarização limitado para elas compromete essa mesma intenção, por mais benévola que seja. Só uma Política Cultural integrada e estruturante, para lá de palavra de ocasião no discurso, o resolverá.

Aos responsáveis da tutela há que assacar essa (ir)responsabilidade de não tomar em mãos aquilo para que estão mandatados e entregarem-no aos obreiros desta situação. São eles que a usam como uma peça de artilharia pesada na consecução do ‘assassinato’ de estruturas com dezenas de anos de trabalho de continuidade e públicos captados e fixados por e para carreiras; e de fazer abortar qualquer veleidade de efectiva emersão de projectos, geracionalmente diferentes, que queiram fazê-lo também. É a tudo isto que importa pôr termo, de uma vez por todas e sem mais atrasos. Adiá-lo é, com ou sem consciência disso, uma cumplicidade com o que de mais sórdido ou ignaro há nesta área.