Só com 2000 casos diários de covid-19 será possível aliviar medidas

Embora a situação epidemiológica esteja a melhorar, o modelo de avaliação de risco desenvolvido por especialistas revela que só no final de Março os internamentos deverão chegar a um nível que permitirá aos hospitais respirar com algum alívio.

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Com o país confinado, Governo e peritos reúnem-se esta semana em nova sessão no Infarmed Nelson Garrido

“Não nos podemos sujeitar a uma nova vaga que introduza uma nova onda de entradas de internamentos nos hospitais”, alerta Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A equipa trabalha num modelo de análise de risco para se perceber até onde é preciso descer, em termos de incidência de novos contágios, risco de transmissão (Rt) e taxa de positividade no total de testes à covid-19, para que se possa pensar em desconfinamento e quais os limites que não devem ser ultrapassados. Embora os níveis estejam a descer, o modelo revela que só no final de Março os internamentos deverão chegar a um nível que permitirá aos hospitais respirar com algum alívio.

Só nos podemos desconfinar quando estivermos a um valor extremamente baixo do ponto de vista epidemiológico. Mas sabemos que mesmo isso não é suficiente, por causa dos internamentos, uma vez que o período de ocupação [de camas hospitalares] é longo para este tipo de patologia”, diz Carlos Antunes, que faz equipa com o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, um dos especialistas que são presença habitual nas reuniões que se realizam no Infarmed com políticos. A próxima deverá ser esta terça-feira, antecedendo a renovação do estado de emergência e o Conselho de Ministros que irá definir as medidas a aplicar.

A que valores será preciso descer? “Níveis de incidência abaixo dos 2000 casos diários médios, o Rt abaixo de 0,9 e uma positividade abaixo de 5%. Só quando chegarmos a esse nível é que a nossa análise de risco diz que estamos num nível seguro. Mas sabemos que, mesmo nessas circunstâncias, os hospitais ainda vão estar preenchidos. O ideal seria chegarmos abaixo dos 3000 internados e abaixo das 300 camas de cuidados intensivos ocupadas. O modelo só me dá esses valores para o final de Março, por causa deste arrastamento da duração do internamento”, reforça. Uma duração que pode tornar-se ainda maior, já que nos cuidados intensivos a percentagem de doentes mais novos está a aumentar.

Por enquanto, mesmo com os números a descer – o boletim deste domingo da Direcção-Geral da Saúde dava conta de 3508 novos casos de infecção, mas é preciso ter em atenção o efeito do fim-de-semana nas notificações, e 6248 doentes com covid internados, dos quais 865 nos cuidados intensivos –, “só o Rt está favorável”. Segundo a última divulgação do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa), o valor médio entre 27 e 31 de Janeiro foi de 0,92. Os outros indicadores, refere Carlos Antunes, “ainda estão em níveis muito elevados: a positividade, embora a baixar, ainda está na zona dos 15% e a incidência, em termos médios, está nos 6000 casos de contágio”.

Duplicar a testagem

São estas indicações que a equipa quer fazer chegar aos decisores políticos. E a de que é preciso estabelecer limites a partir dos quais se tem de actuar quando houver desconfinamento. Até porque este mecanismo, explica o especialista, só faz baixar o contágio até um certo limite. “Há uma parte de mobilidade que continua a existir e que continua a provocar contactos. Achamos que o que pode servir como compensação é tentar duplicar ou triplicar a testagem. Estamos a fazer actualmente 4,7 testes por cada mil habitantes.”

Essa é outra das indicações que querem salientar junto dos políticos, a de que todos os que têm de estar expostos ao risco de contágio, por terem de trabalhar em presença, por exemplo, sejam testados com regularidade. A par do reforço da testagem dos casos suspeitos e dos rastreadores para controlo das cadeias de contágio. “A preocupação são os assintomáticos, que continuam a ser cerca de 70% dos infectados” e que, se não forem detectados nos rastreios, poderão dar origem a novos contágios.

Perante este cenário, para Carlos Antunes só em Março se deveria pensar em desconfinamento. Que poderá começar pelas escolas e entre os alunos até aos 12 anos. “É o que os especialistas da área indicam, mas feito de uma forma gradual, para conseguirmos monitorizar o efeito da abertura. Temos dois indicadores que nos comprovam que ao fim de oito dias de as escolas terem fechado, a aceleração da variação de número de casos baixou drasticamente”, diz. Este efeito também já tinha sido apontado por Pedro Simões Coelho, coordenador do projecto Covid19 Insights, que disse ao PÚBLICO que no período de uma semana foi possível reduzir a transmissibilidade do vírus entre 35% e 40% e que apontava como barreira de segurança para o início de um desconfinamento gradual 5000 novos casos diários de covid-19.

“O ideal é corrermos um pouco mais do que o vírus para que, mal as pessoas sejam infectadas, sejam isoladas automaticamente. Dessa forma, a pandemia fica controlada. É isso que estamos a tentar transmitir, que para controlar a pandemia temos de ter limiares e não os podemos ultrapassar”, afirma Carlos Antunes, reforçando que “é preciso agir antes de se chegar à ‘linha vermelha’”. “Se o meu limiar máximo é 4000 casos diários, um Rt 1,10 e uma positividade de 10%, tenho de fazer tudo para não chegar a esse valor. Essa é a estratégia”, reforça o especialista, referindo que estes são os limiares que estabeleceram “em função da análise do historial e da pressão que a situação exerce sobre os hospitais” do país.