Em Santa Maria da Feira, um sem-abrigo não troca a sua cadela por uma casa

Os centros disponíveis para o acolher não contemplam a sua companheira de quatro patas. Luís recusa-se a abandonar Kika e está disposto a tudo: ir para qualquer local no país, trabalhar no que houver. Desde que a mantenha a seu lado.

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Nelson Garrido/Público

Luís Pereira nasceu na antiga freguesia de São Martinho, em Sintra, e aos quatro anos foi abandonado pela família biológica, assim como a sua irmã, na Santa Casa da Misericórdia, onde foi adoptado por um casal de Santa Maria da Feira. A droga lançou-o para as ruas e, embora tenha dado a volta à dependência, arranjar casa é um desafio. Sobretudo porque se recusa a abandonar aquela que é a sua única companhia e o seu maior apoio: a cadela Kika. Entre uma casa e o animal, Luís recusa-se a abdicar da amiga.​.

Nos últimos dias tem vivido numa antiga pensão da cidade, subsidiada pela Segurança Social, depois de um jornal local ter dado conta que, nestes dias de pandemia, estava a viver numa tenda com a sua cadela, a Kika. Porquê? Não a queria abandonar. “Aqui na Feira e na zona de Aveiro, não há soluções para pessoas sem-abrigo com animais. Até só para sem-abrigo há muito pouco. Eu estou a lutar e vou continuar a lutar para não ter de abandonar a minha cadela”, conta ao PÚBLICO.

Luís tinha encontrado uma luz ao fundo do túnel quando o aceitaram na “Condeixa Pa’tudos”, em Coimbra. Em troca de uma casa, para si e para Kika, e alimentação, disponibilizou-se para ajudar com os animais que eram recolhidos pela associação, ao mesmo tempo que auxiliava na limpeza da quinta. Mas, devido a uma doença infecciosa que apanhou, foi obrigado a sair e a ficar sem rumo novamente.

É difícil para Luís explicar de onde vem a sua forte conexão a Kika. Já viveu com outros dois animais, enquanto era sem-abrigo, mas acabou por ter de os dar para adopção em troca de um tecto. “A minha ligação com o Mickey e o Max não era tão forte como a que tenho com a Kika. Quando estava a viver em Santo Ovídio, no Porto, com o Mickey, eu fiquei muito doente com uma pneumonia e tive de recorrer ao Narcóticos Anónimos para encontrar um abrigo para me tratar”, conta.

As drogas apareceram na sua vida aos 24 anos mas este já é um capítulo fechado para o homem, agora, com 35. “A minha vida começou a decair nessa altura. Cheguei a roubar algumas coisas da minha casa para vender e poder ter dinheiro para consumir, o que fez a minha família fechar-se para mim. Mesmo agora que estou limpo”.

E a Kika foi fundamental para conseguir dar a volta à vida. Luís guarda a cédula de nascimento da sua cadela em cima da mesinha de cabeceira do seu quarto, na pensão. “Nasceu a 29 de Abril de 2019. Ainda nem dois anos tem. Fui buscá-la a um canil do Porto quando vivia lá nas ruas. Eu consumia na altura e decidi pôr um fim a essa dependência. Daí querer arranjar uma companhia para me ajudar”, afirma. A partir daí, foram-se aproximando cada vez mais. Luís deixou as drogas aos poucos, ao mesmo tempo que Kika crescia ao seu lado. “Desde o início, eu liguei-me muito à cadela, como nunca me tinha acontecido com os outros animais que tive. Ela é uma cadela diferente de todos os outros cães. Não sei expressar o meu amor pela Kika. Ela salvou-me a vida”, confidencia, enquanto acaricia a cabeça do animal.

É tudo o que lhe resta. Um dia antes do Natal, Luís estava em Coimbra, num centro para pessoas sem-abrigo, mas que não aceitava animais – o Farol. Estava “a bater mal”, nas palavras do próprio, por não ver a sua cadela há mais de três semanas e estar fechado há duas devido às regras sanitárias impostas pelo centro. Decidiu sair de lá e rumar a Santa Maria da Feira, onde Kika se encontrava na associação “Cão ou sem Casa?”. “No Natal, eu não tive ninguém que me ligasse. Nem família, nem amigos. Só tinha a minha Kika aqui comigo para me fazer companhia”, lamenta, emocionado.

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Faltam soluções

Ana Tavares é uma das colaboradoras da associação “Cão ou sem Casa” . A sua experiência na área, tanto profissional como pessoal, leva-a a perceber a ligação que foi estabelecida entre Luís e Kika. “No caso do Luís, por culpa do contexto, ele deambula sozinho. E a Kika tornou-se algo constante na vida dele. Não importava quantas vezes ele errava, ela estava lá sempre com ele – é um animal fiel, como quase todos os animais. Já pedir isso das pessoas é mais complicado. Elas criam expectativas e, quando existem erros sistemáticos, acabam por se afastar”, explica.

Não é a primeira vez que entrou em contacto com o caso de Luís. No ano passado, um vereador da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, numa caminhada por um dos parques da cidade, encontrou-o a viver numa tenda – um caso idêntico àquele registado em Janeiro – e decidiu ligar a Ana para encontrarem uma solução.

A “Cão ou sem Casa” não se especializa nestes problemas – é uma associação que promove a adopção de animais abandonados, através de sessões fotográficas dos mesmos. Ana admite que ficou “revoltada” quando soube da situação em que Luís se encontrava e foi por isso que decidiu ajudar. No entanto, explica que “não existem soluções, localmente, que congreguem as duas problemáticas do caso – o lado animal e o humano”. A nível estrutural, tanto a Câmara Municipal, como a Segurança Social, não podem fazer muito – “Existem abrigos desimpedidos, sim, mas eles são obrigados a estar vazios pois estão reservados para eventuais desastres naturais, por exemplo. Não podem receber o Luís e a Kika”, afirma.

Em discussão na especialidade do Orçamento do Estado de 2021, o PAN conseguiu que o Governo acolhesse uma medida para adaptar os centros para sem-abrigo, de forma a poder albergar os seus companheiros de quatro patas - mas a medida ainda não começou a ser implementada. 

A correr contra o tempo

Ana e Luís mantêm a esperança de que ainda seja possível encontrar uma solução por outras vias. Depois de tantos anos a não conseguir manter algo estável na sua vida, lamenta que a solução existente seja tiraram-lhe a única coisa constante que tem, a única relação que tem preservado.

Sem oportunidades de arranjar um trabalho devido à situação pandémica, nem possibilidades de alugar uma casa em Santa Maria da Feira para viver com a Kika, Luís apela a algum tipo de ajuda. Diz que não se importa de onde ela vem, “seja do Norte ou Sul do país”, nem com que condições – “não tenho medo de trabalhar”. “Eu vou com a Kika para onde tiver de ir, desde que possa ficar com ela. Não é dinheiro que está aqui em causa, é estar com ela”, afirma.

O tempo está a contar. Em pouco mais de uma semana, vai ter de fazer uma escolha quando baterem à porta do seu quarto na pensão com a oferta de um novo abrigo, exclusivo para pessoas. Luís apresenta-a desta forma: “Ou morro de uma pneumonia na rua, por amor à cadela, ou dou-a para adopção para conseguir uma melhor vida para mim”.

Texto editado por Ana Fernandes