Líder do CDS: “Assumo com humildade que cometi erros”

Francisco Rodrigues dos Santos admite congresso mas só após as autárquicas

Foto
Francisco Rodrigues dos Santos diz que tentou pacificação interna LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

O líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, admitiu “erros” mas assume que tem condições para “fazer mais e melhor”. Na sua intervenção no conselho nacional, que decorre por videoconferência e foi aberto à comunicação social, o líder deixou recados aos críticos internos. E abriu a porta a um congresso após as eleições autárquicas.

“Assumo com humildade que cometi erros e que nem tudo correu da maneira como gostaria. Apesar das circunstâncias completamente novas e austeras com que nos deparámos no partido, no país e no xadrez político à direita, sinto termos condições para fazer mais e melhor”, afirmou, embora não tivesse detalhado essas falhas. Defendeu, no entanto, que deve cumprir o mandato de dois anos.

Rodrigues dos Santos afirmou que a sua liderança não está preocupada com “agendas pessoais, com vaidades políticas nem com tacticismos internos”, referindo que a sua eleição nunca foi aceite pela “nomenclatura anterior”, numa referência aos antigos dirigentes que o criticam, como é o caso Adolfo Mesquita Nunes.

No seu discurso perante os conselheiros nacionais, na sede do partido, o líder do CDS considerou ser até “muito irónico que os mais entusiastas do rumo anterior, apareçam agora envergando o manto de benfeitores, querendo correr com esta direcção que se debate diariamente para reerguer o partido”. Sem dizer o nome do antigo vice-presidente ou de outros antigos dirigentes, Rodrigues dos Santos referiu-se ao entusiasmo pelo lançamento da candidatura presidencial de Adolfo Mesquita Nunes pela Iniciativa Liberal, o que foi rejeitado pelo próprio.

“Não pude deixar de registar a forma despudorada com que, muitos dos que vieram reclamar a minha substituição após os resultados das eleições presidenciais, tenham sido os mesmos que de forma pública e audível apoiaram uma candidatura presidencial com motivações partidárias concorrentes às do CDS, contra a deliberação expressiva no conselho nacional… e que acabaram a noite a disputar o último lugar”, disse, numa alusão ao candidato Tiago Mayan Gonçalves, da Iniciativa Liberal.

No seu primeiro ano de mandato, o líder dos democratas cristãos considerou ter feito um esforço de pacificação sem sucesso: “Sempre tratei com absoluto respeito e lealdade todos os protagonistas do partido, e nem sempre tive a reciprocidade que se exigia. Manifestamente, não fui bem sucedido no meu esforço: são incontáveis e intermináveis as notícias, os telefonemas, os recados, e as supostas desavenças internas com que fui diariamente confrontado”.

Com uma proposta de congresso extraordinário em cima da mesa, o líder do CDS admite antecipar o calendário da reunião magna só prevista para Janeiro de 2022. “Se, a seguir às eleições autárquicas, estiverem na disposição de ponderar a realização de um congresso, saibam que não me oporei a que essa discussão tenha lugar”, disse, depois de referir que a realização de um congresso já “afecta a reputação do partido e tem um efeito devastador na formação das nossas listas” para as eleições locais. 

Nos últimos dias, os apoiantes da direcção têm-se queixado da herança deixada pela liderança anterior, uma ideia retomada nesta reunião​. “Ao longo do último ano, eu e a minha equipa tivemos de começar a reerguer um partido que o rumo anterior deixou arruinado financeiramente, desacreditado e à mercê da concorrência de novas forças políticas que favoreceu que surgissem pela primeira vez. Sobre a gestão fracassada de quem guiou o partido até ao congresso de Aveiro e sobre o estado em que o encontrámos, nunca ouvimos uma única explicação”, disse o líder dos democratas-cristãos.

Pouco tempo depois, Adolfo Mesquita Nunes interveio mas não respondeu a nenhuma das farpas. O antigo dirigente reiterou a necessidade de um congresso extraordinário para que aconteça uma mudança no partido. “Precisamos de mudar a imagem de declínio. Precisamos de uma liderança credível e que olhe para o país. Se queremos vencer os partidos emergentes temos de comunicar melhor do que eles”, disse, apontando ainda a queda do Governo após as autárquicas como um cenário que o partido terá de ter em conta .

Recusando uma crise “artificial”, Adolfo Mesquita Nunes reafirmou que está em causa a sobrevivência do partido e apontou as várias demissões que ocorreram no seio da actual direcção.

O candidato à liderança do partido, caso seja convocada a reunião magna extraordinária, prometeu trazer “gente nova”, uma “nova equipa e capacidade de chegar às pessoas”. E aproveitou para tentar desfazer as dúvidas sobre a realização de um congresso digital: “Vivemos tempos extraordinários”.

A reunião do conselho nacional tem decorrido de forma tensa e irá votar uma moção de confiança à direcção por escrutínio secreto, um método que acabou por ser aprovado depois de muitas horas de discussão.