Pela esquerda que somos

Para a minha esquerda o fundamental era ser parte do povo que recusava o extremismo populista e reacionário, que, final e infelizmente, ganhou voz em Portugal saído e alimentado por uma parte da direita portuguesa.

Num momento em que Portugal enfrenta uma crise de gravidade incomparável e num momento que teremos de manter a determinação para enfrentar as novas fases desta crise, alguns pensarão que este escrito é irrelevante. Ou até inoportuno. Ainda que com dúvidas resolvi escrevê-lo. A propósito de algumas leituras das eleições presidenciais, nomeadamente a do meu camarada socialista Pedro Nuno Santos e outras vozes da esquerda.

Por vezes, deixar entalada uma opinião custa e deixar passar sem resposta afirmações de que discordamos profundamente custa ainda mais. Não gastarei este espaço a dirimir patrimónios de esquerda e acusações de derivas centristas. Apenas me interessa que não fique a ideia de que quem se atreveu a apelar ao voto em Marcelo Rebelo de Sousa (como eu) receia responder aos seus veementes críticos.

Começo por lembrar algo que todos concordamos: tratou-se de um voto unipessoal e, na nossa ainda jovem democracia, quantas vezes o povo mostrou perceber essa diferença face às lideranças partidárias. Mas quem tem responsabilidade política e a assume publicamente é natural que justifique as suas opiniões.

E quero ser claro: pelo que foi o seu mandato e pela forma como se apresentou à eleição, o Presidente eleito foi a minha escolha porque era o melhor de todos os candidatos para o país e para o povo português. Para mim isso chegava-me. Muito me afasta do Presidente, na formação, na história pessoal, na ideologia. Ainda assim, pelo que fez pelo país e pela forma como contribuiu para o respeito e aprofundamento da democracia constitucional nos últimos anos, mereceu a minha confiança.

Mas entremos na tática e na estratégia política de quem é socialista. A meu ver, vários erros de análise e excessivas simplificações marcam as posições dos que defenderam como dever de os socialistas apoiar a candidata, militante do PS, Ana Gomes.

Tudo começa na já tradicional visão simplista de um país dividido entre um povo que só não é progressista e de esquerda por ignorância ou manipulação, e uma minoria de capitalistas e os seus serventuários. Como a história, pelo mundo fora, tragicamente mostrou, a sociedade é bem mais complexa do que esta visão que, recorrentemente, alguns “verdadeiros” socialistas, estejam dentro ou fora do PS, teimam em reproduzir.

Não é que não existam interesses de classe e contradições sociais por vezes brutais. Existem e permanecem verdadeiros e a explicarem muito do que se passa no mundo. Mas a complexidade da sociedade contemporânea radica na existência de sectores sociais, muitas vezes de colocação socioeconómica e, principalmente, doutrinária de natureza intermédia, a que muitas vezes chamamos de centro, centro-esquerda ou centro-direita.

Para quem acredita nas virtudes das sociedades abertas, no sistema de partidos e na naturalidade da alternância e, ao mesmo tempo se coloca do lado da esquerda, a grande batalha política trava-se na conquista cultural, ideológica e eleitoral desse que é, tantas vezes, um grupo social muito representativo.

Importa esclarecer de que esquerda falamos: da esquerda que acredita na liberdade e na democracia, no poder do voto e na defesa dos valores da igualdade e na predominância do interesse coletivo sobre os interesses particulares. Da que acredita no papel determinante do Estado, mas também no papel relevante da iniciativa individual e na criatividade dum mercado regulado e limitado no seu poder.

Numa esquerda que acredita que ser poder à esquerda implica negociar com toda essa esquerda não para a federar, esbatendo fraturas de raízes profundas, mas para construir escolhas que a maioria reconheça como as mais adequadas ao progresso e ao desenvolvimento social.

Para essa esquerda que é a minha, escolher nas presidenciais era ser parte do povo a que muitos chamam “centrão” com medo de reconhecer que ele é, sociologicamente, quem faz as maiorias. Para a minha esquerda o fundamental era ser parte do povo que recusava o extremismo populista e reacionário, que, final e infelizmente, ganhou voz em Portugal saído e alimentado por uma parte da direita portuguesa. Cada um faz as suas escolhas, mas recusar fazer parte dessa ampla maioria seria entregar, com ou sem segunda volta, um maior protagonismo à extrema-direita, com custos muito pesados.

O povo e o “povo socialista” entenderam-no bem. Bem melhor que muitos que por ele falam.

Como país e como parte desta Europa sabemos bem o risco do autoritarismo dessa direita, xenófoba, marialva e autoritária. E devemos compreender e eliminar, sem perder tempo, as fragilidades sociais que ajudam a dar-lhe corpo. Mas não podemos esquecer as vezes que, por sectarismo e pretensa superioridade moral, alguma esquerda lhes facilitou o caminho.

Agora o que conta é esta luta que nos coube travar: vencer a pandemia e recuperar a economia e o emprego com mais justiça e mais coesão, corrigindo erros e renovando a nossa convicção nos valores da liberdade, da democracia e da coesão social.

Tenho uma convicção profunda que, no atual quadro partidário, é uma convergência à esquerda que melhor pode representar a maioria das portuguesas e dos portugueses, garantindo estabilidade e capacidade de construir respostas de urgência e de futuro.

Haverá decerto temas, momentos e escolhas em que se justifiquem compromissos políticos e sociais mais alargados. Mas soluções governativas de “grande coligação” só acrescentariam novos fatores de tensão a um quadro já muito difícil.

Assim, é aqui e agora que a esquerda tem de convergir sem medo de compromissos nem de diferenças.

Dentro do PS temos sabido conviver com leituras e posicionamentos distintos. Assim, na esquerda, todos tenham, no espaço e na dimensão que representam, essa vontade.

Já todos aprendemos que é possível, é preciso compreender que é crucial.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico