O cinema enquanto ferramenta de promoção de valores ambientais

Além da difusão do gosto cinematográfico, o cinema ambiental tem sido um instrumento primordial na promoção da educação ambiental junto de escolas. No caso concreto do CineEco, isso é feito em Seia, no decurso do festival, mas também em mais de 40 cidades portuguesas, através da sua vasta rede de extensões.

Escrevo este texto, sobre a importância do cinema na promoção dos valores ambientais, a partir da minha experiência enquanto diretor e fundador do CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela. Uma história contada na primeira pessoa, num percurso de 25 anos, que nos traz à atualidade um evento organizado pelo município de Seia, no quadro de programação cultural deste concelho do interior do país.

Se em 1995, quando, no âmbito das atividades do município de Seia, lançámos o festival, os filmes se apresentavam numa versão minimalista e com laivos de moralismo, focados sobretudo na natureza, hoje ampliou-se de forma gigantesca o olhar de temáticas relacionadas. O ângulo de abordagem nos mais de 600 filmes apresentados anualmente a concurso, oriundos de mais de 40 países, é cada vez mais alargado a temáticas diversificadas, já que hoje quase tudo tem a ver com questões ambientais.

1. Ao longo dos anos foram sobressaindo numa primeira linha os filmes-documentário que, normalmente, retratam o mundo natural e frequentemente desastres ambientais e uma certa “sacralização apocalíptica”; numa segunda linha, filmes que assumem como tema questões ‘ambientalistas puras’, evidenciando frequentemente protagonistas ‘defensores da natureza’ (tal como o já popular Erin Brockovich) e, por fim, os de animação, inscrevendo-se representações simbólicas das visões do homem sobre a natureza.

Temáticas pertinentes, com propósitos de alterar hábitos, afirmando-se alguns festivais, não só como eventos, mas acima de tudo como movimentos capazes de gerar mudanças de comportamentos nas pessoas. Numa espécie de gestos locais para mudanças globais, onde os jovens e as crianças têm papel central. A confirmação de alguns fenómenos como as alterações climáticas, as ameaças à biodiversidade, o esgotamento de recursos, entre outros, colocaram na agenda mundial a tomada de consciência da crise ambiental de carácter global.

Em face destas ameaças cada vez mais presentes, nos atropelos aos valores ambientais e de sustentabilidade, emerge o imperativo de mudança. De um modo geral e de forma simplista, o foco coloca-se sobretudo na necessidade de redução de uso de plásticos, na redução de consumo de carnes e outros alimentos compostos, e de uma maneira geral na redução da emissão de gases com efeito de estufa provenientes de industrias, transportes, agricultura ou resíduos.

Verifica-se, no entanto, a implementação recente de uma certa moda ambiental, em que muito é feito pela sustentabilidade, porque fica bem ou por que impressiona ou vende. No entanto, nem sempre é assim, como revela Werner Boote no seu filme Mentira Verde (The Green Lie), que abriu o CineEco 2018, onde se denunciam multinacionais que vendem produtos verdes, mas que no fundo não passam de estratégias de marketing para vender mais, em nome do ambiente. Daí o papel decisivo das curadorias na elaboração das programações, entrando em linha de conta com os Critérios de seleção dos filmes – qualidade artística e história que o filme conta e relevância para problemas atuais e autenticidade cientifica. Por isso, acentuamos a tendência para o critério da esperança, para que não seja apenas a “triste realidade” mas também casos de sucesso. Não só nos filmes para crianças mas também para o público em geral.

2. Neste contexto, importa sublinhar a importância do cinema enquanto ferramenta que permite partilha de conhecimento, assim como área de fornecimento de pistas de aprendizagem capazes de abrir portas à reflexão. Que levem a questionar, a inquietar e a operar mudanças de comportamento, sobretudo quando falamos de cinema enquanto recurso educativo. E, aqui, entra em linha de conta a importância de problematizar estratégias de linguagem, operadas em filmes eco-ambientais, de cariz educacional.

Filmes, enquanto objetos artisticos e ferramentas pedagógicas, capazes de demonstrar a importância das artes para mudanças de paradigmas nas sociedades contemporâneas. Neste caso concreto das questões de ambiente e sustentabilidade, podemos dizer que o cinema é uma ferramenta muito importante e que dá os seus frutos. E tanto maior é o contributo, quanto maior é o leque de intervenção. Quantas mais sessões, mais ações e iniciativas se multiplicarem, seja nos auditórios, nas escolas ou outros espaços alternativos. E de preferencia com o impulso de festivais de cinema, para darem mais consistência à ação e missão.

É um facto indesmentivel que nos últimos anos tem disparado o surgimento de festivais de cinema no mundo e, neste caso em particular, de cinema ambiental. Isso também se deve ao incremento muito abundante de produções cinematográficas focadas nas questões ambientais. Festivais que desafiam, inspiram e motivam as pessoas a sair e tentar fazer a diferença nos seus mundos e, em particular, nos universos escolares.

Naturalmente que os festivais são fenómenos das industrias culturais, mas também da emergência de novos problemas das sociedades contemporâneas a braços com ameaças e problemas de sustentabilidade que tocam de perto todos os cidadãos do planeta. Festivais de cinema de ambiente, que constituem um universo à parte. Entre 1999 e 2010, registou-se um pico de criação de festivais desta temática e hoje, no calendário de realizações, concentram-se sobretudo em nos meses de abril, maio e junho e outros nos meses de setembro, outubro, novembro.

Tematicamente restritos, mais do que plataformas de circulação de eco-cinema, constituem-se como pontos de encontro onde os cineastas e o público interagem. Ou seja, espaços e lugares onde emerge a natureza democrática da participação popular, com conversação, diálogo e estimulo à criação e participação.

Neste quadro de ação dos festivais, a Educação Ambiental cumpre um desígnio importante, um serviço público que emerge em várias plataformas e projetos, para dar contributos vários. Para formar públicos, para despertar o gosto pelo cinema e pelo ambiente, para despertar consciências e formar cidadãos. Um desafio duplo, entre a magia do cinema e a emergência de preocupações e visões de natureza ambiental.

Entendemos, por isso, que, além da difusão do gosto cinematográfico, o cinema ambiental tem sido um instrumento primordial na promoção da educação ambiental junto de escolas. No caso concreto do CineEco, isso é feito em Seia, no decurso do festival, mas também em mais de 40 cidades portuguesas, através da sua vasta rede de extensões, exibindo filmes e estabelecendo diálogos, em interação  dinâmica e motivadora.

Dessa forma, dão-se pequenos contributos para a formação de cidadãos mais esclarecidos a nível ambiental, no sentido de poder permitir a defesa de um bem-comum. Nesta matéria, predomina o género de animação, como forma de chegar mais próximo do público-alvo, neste caso, as crianças. Género animado e atrativo, de modo a suscitar interesse e entusiasmo e assim ajudar na ampliação de públicos para o cinema ambiental.

3. Em nosso entender, é possível um filme apresentar um problema, denunciar determinado atropelo aos valores ambientais, mas ao mesmo tempo contar uma história e, por fim, apontar caminhos para uma solução sustentável. Tornar o filme ambiental como objecto artístico atractivo, desmistificando a ideia de filme eco-chato.

Empoderar a juventude através da educação ambiental para a adoção de um estilo de vida saudável é um dos propósitos dos festivais, de uma maneira geral, e que foi reforçado no I Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente que organizámos em Seia no CineEco 2018. E fomos bem sucedidos, ao ponto de Giulia Braga, responsável de Comunicação Externa do Banco Mundial e Connect4Climate, ter revelado disponibilidade em apoiar jovens realizadores e cineastas com base na proliferação de uma plataforma sobre o clima, no sentido de influenciar decisões políticas de uma forma positiva. Uma posição reforçada no mesmo fórum por Catherine Beltrandi, representante da UNEP – Departamento de Ambiente das Nações Unidas, para quem é importante a envolvência e mobilização das Universidades em todo o mundo.

No fundo, pretende-se que os alunos aprendam a utilizar o conhecimento para interpretar e avaliar a realidade envolvente, para formular e debater argumentos, para sustentar posições e opções, competências, consideradas fundamentais para a participação ativa na tomada de decisões fundamentadas, numa sociedade democrática, face aos efeitos das atividades humanas sobre o ambiente.

Já agora, podemos dizer que os intervenientes deste 1.º Fórum de Festivais de Cinema Ambiental reconheceram ainda a importância da componente cientifica para reforço da confiança no trabalho apresentado e um elemento chave no esclarecimento das populações. Concluiu-se igualmente pela importância do desafio comum dos festivais na criação de novos públicos, uma componente determinante da missão de cada festival. Uma missão de serviço público, que é levar os jovens a gostar de cinema e a despertar os seus olhares e consciências para as questões ambientais. No âmbito da maximização do impacto dos festivais de cinema ambiental nos seus países de origem, foi igualmente consensual o poder de impactar o público em geral, mas também a classe política para a tomada de ações concretas. No caso português, emerge uma certa urgência na cooperação entre as tutelas do Ambiente e da Educação, de modo a que estes ministérios possam reforçar o trabalho no domínio da Educação Ambiental. E, neste particular, o Cinema assume-se como importante ferramenta para cumprimento desta missão tão premente quanto nobre.

4. Chegados aqui, reiteramos a importância da promoção da sensibilização ambiental, assim como o incremento do diálogo aberto, crítico e reflexivo sobre os novos desafios ambientais. Nesse quadro, colocamos esse desafio e foco na realização de eventos de natureza científica e de divulgação, como são os festivais. Nesse particular, colocamos igualmente o ordenamento do território, a biodiversidade e a geodiversidade, considerando o impacto das alterações climáticas, na dimensão adaptação e mitigação, o uso eficiente de recursos e a valorização do território. Um desafio que considere o ordenamento do território e a conservação e valorização do património — natural, paisagístico e cultural — como elementos centrais que nos permitem viver bem dentro dos limites do planeta, incluindo a adaptação às alterações climáticas.

Incrementar boas práticas ambientais e, sobretudo, as de educação para o território, cujo potencial e valorização se afiguram cada vez mais como desígnio premente e imprescindível nos dias de hoje. Nesse sentido, considera-se igualmente relevante que a natureza em todo o seu esplendor seja vista como um ativo político e turístico, de que resulta a importância da sua preservação assim como da valorização das culturas tradicionais, como imperativos das nossas comunidades e entidades responsáveis.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico