Gouveia e Melo, um submarinista em Pedrógão

É um silent servant, com a noção do serviço público sem estridências. É discreto e há muitos meses estava no planeamento da luta à covid.

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Gomes Cravinho e Gouveia e Melo na sala de situação no Ministério da Saúde Jose Sarmento Matos

No Verão de 2017, a região Centro de Portugal é assolada por uma intensa vaga de calor que provoca o mais dramático braseiro na história do país. Mortos, casas destruídas e a devastação florestal provocam trauma nas populações locais e a consternação dos portugueses. A dimensão da tragédia revela a insuficiência dos meios de socorro.

As Forças Armadas colocam homens no terreno. Os fuzileiros distribuem alimentos, uma missão necessária, mas que desperta a sorna entre os críticos. O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, carreira de 15 anos nos submarinos, dá coerência à acção dos fuzos por montes e vales. A Marinha enviara a Autoridade Marítima por estar integrada na área da Protecção Civil e por, em matéria de fogos florestais, comunicar com os aviões que combatem as chamas nos reabastecimentos em barragens ou em caudais importantes, entre outras tarefas.

Esta integração permite a Gouveia e Melo, também especialista em comunicações e guerra electrónica, lidar com o descalabro do SIRESP, o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança, cujo falhanço comprometeu a acção dos bombeiros. Nos meios castrenses, com um humor que reconhece os méritos mas realça o paradoxo, o vice-almirante passou a ser apelidado de “submarinista de Pedrógão”.

“É um líder com grande capacidade de organização, pensa e actua nesta sequência”, afirma, ao PÚBLICO, o ex-Chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Melo Gomes. “Tem de ter uma equipa que o apoie, ninguém faz nada sozinho”, acentua. Estas capacidades de planeamento foram reconhecidas e, desde Janeiro de 2020, é adjunto para o planeamento e coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas, na dependência directa do CEMGFA, almirante Silva Ribeiro.

“O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo e o tenente-general Marco António Serronha são expoentes no planeamento”, sintetiza um especialista em temas militares que prefere o anonimato. Tanto Gouveia e Melo como Serronha colocaram as suas capacidades ao serviço da luta contra o covid.

Antes de integrar a task force do plano de vacinação, que a partir da noite desta quarta-feira dirige por nomeação do Governo em substituição de Francisco Ramos, o vice-almirante já integrava o Núcleo de Apoio à Decisão (NAD) junto da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Esta equipa de três militares, como revelou ao PÚBLICO o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, desenhou um novo modelo matemático para gerir a previsão de camas covid-19 e a taxa de esforço de cada hospital daquela região. Assim, a gestão passou a ter um horizonte de 15 dias e uma maior previsibilidade numa situação volátil.

Por seu lado, o general dos comandos Serronha está à frente do Comando Conjunto para as Operações Militares, o bunker de Oeiras, que inovou informaticamente a gestão dos vários apoios do Exército à luta contra a pandemia. Uma tarefa bem sucedida, que o guindou ao planeamento da ajuda militar de Portugal a Moçambique, requerida por Maputo para lutar contra o terrorismo jihadista na Beira.

Terá sido pela acção em Pedrógão ou na luta contra a covid que o Presidente da República divulgou que devia ser um militar a estar à frente da task force da vacinação? Certo é que, para Marcelo Rebelo de Sousa, Gouveia e Melo não era um desconhecido, pois condecorou-o com o grau de Comendador da Ordem Militar de Avis. Também era conhecido pelo Governo que o escolheu para dirigir os rumos da vacinação.

Já era noite quando o militar saiu na quarta-feira do Ministério da Saúde, depois de se reunir com a ministra Marta Temido. Quando entrou, num ritual de bom senso e discrição, nada comentou aos jornalistas. À saída, já nomeado, foi directo. “Temos de analisar a razão das falhas [da vacinação] e tentar evitar que se repitam, apertando as malhas e o controlo”, disse. “Vou trabalhar com a estrutura da Saúde, em apoio mútuo”, prosseguiu. “Há uma em cada mil vacinas administradas que ainda não foi completamente clarificado o que lhe aconteceu”, destacou.

Antigo porta-voz do gabinete do Chefe de Estado-Maior da Armada, o vice-almirante tem um perfil de silent servant, de servidor sem estridências. “É um homem que tem a noção do serviço público e de servir discretamente”, assim o classifica o almirante Melo Gomes. “É uma das melhores cabeças que a Marinha tem, não é vaidoso, é sempre discreto”, define-o o especialista contactado pelo PÚBLICO. “É amado e odiado na Marinha, quando entra é para pôr a casa em ordem”, concluiu.

Aos 60 anos, a missão que lhe foi confiada, que a experiência recente tornou em desafio, é dirigir a vacinação de 7,15 milhões de portugueses contra a pandemia. Sem sobressaltos, clareza nos critérios e transparência nos actos. Para as Forças Armadas, este é o momento de ajudar a corrigir as disfunções que também as afectaram com o escândalo do roubo de armamento em Tancos.