Os trabalhos dos militares na luta contra a covid-19

Rastreio, desinfecção de lares, desenvolvimento do modelo matemático para gestão das camas e, agora, gestão do plano de vacinação. As Forças Armadas são cada vez mais um parceiro activo no combate à pandemia.

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Visita ao Hospital das Forcas Armadas que está a aumentar a capacidade para receber doentes covid-19 Daniel Rocha

O apoio dos militares ao Serviço Nacional de Saúde, no âmbito do combate ao SARS-CoV-2, começou na primeira hora. A 19 de Março, um dia depois de ser declarado pelo Presidente da República o primeiro estado de emergência, já havia notícias de tendas distribuídas em várias unidades de saúde para triagem de casos suspeitos e milhares de camas cedidas em instalações militares do país. Seguiram-se desinfecções de lares e escolas, abertura de espaços para receber casos positivos, campanhas de sensibilização, intervenções em prisões e apoio aos inquéritos epidemiológicos. Desde quarta-feira, passou também para as mãos dos militares a gestão do plano de vacinação anticovid-19. A cereja no topo do bolo é um bunker, em Oeiras, onde é coordenado todo o apoio que as Forças Armadas dão na luta contra a pandemia. 

Triagem de casos suspeitos

As Forças Armadas disponibilizaram, em Março, 2000 camas para reforçar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde "internamento de infectados não-graves e com evolução favorável” e 300 para apoio aos profissionais, na resposta à pandemia de covid-19. Além das camas em várias unidades militares da sua rede de saúde, as Forças Armadas cederam tendas de campanha que foram colocadas junto a dez estabelecimentos do SNS para reforçar a capacidade de triagem e de isolamento de casos suspeitos.

Gel desinfectante e testes

O Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos aumentou a produção de gel desinfectante para dois mil litros, logo no início da pandemia. Além disso, o  LMPQF desenvolveu um “procedimento laboratorial” para a detecção do coronavírus "em amostras biológicas”, obedecendo à mesma metodologia utilizada pelo Laboratório de Referência Nacional Doutor Ricardo Jorge.

Camas na Base Aérea da Ota

Em Abril, um surto num hostel de Lisboa levou a que a Base Aérea da Ota, em Alenquer, disponibilizasse camas a mais de uma centena de cidadãos estrangeiros infectados pelo SARS-CoV-2. Ao todo, foram preparadas 500 camas, só nesta base, para apoiar casos semelhantes. A “oferta” foi replicada noutros pontos do país, em especial quando houve necessidade de garantir o isolamento social e se verificou sobrelotação dos centros de acolhimento do Conselho Português para os Refugiados. 

Desinfecção de lares e escolas

Uma das primeiras funções dos militares, através do elemento de defesa Biológica, Química e Radiológica, foi a descontaminação de grandes áreas, como começou por acontecer em vários lares do país onde houve casos positivos de SARS-CoV-2 (o primeiro de todos situava-se em Vila Real). Em Maio, a tarefa de desinfecção foi estendida às 540 escolas que reabriram para os alunos do 11.º e 12.º ano. Nessa fase, sessenta equipas do Exército e da Marinha realizaram também acções de confiança e segurança nas escolas, incluindo formação de professores e funcionários e sensibilização dos alunos. Mais tarde, essas acções foram estendidas às prisões, quando se registaram os primeiros surtos.

Modelo matemático

Em Outubro, soube-se que três militares estavam a trabalhar com a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo na gestão da previsão de “camas covid-19" e da taxa de esforço de cada hospital daquela região. Este pequeno grupo de militares especialista em tratamento de dados, planeamento estratégico e previsão introduziu um novo modelo matemático que passou a permitir uma previsibilidade, ao nível das camas disponíveis, a 15 dias (em vez de quatro).

Bunker contra a covid-19

No Comando Conjunto para as Operações Militares (CCOM), em Oeiras, foi instalado o centro nevrálgico da articulação da acção das Forças Armadas no combate à covid-19. Ali tornou-se possível ter uma visão global de todas as acções em curso por parte dos militares, visualizando, quase tem tempo real, os quadros e os mapas com o estado de cada uma das situações em que os militares estão envolvidos. Pela forma como está disfarçado do exterior, este espaço é designado por bunker.

Hospital Militar de Lisboa

Em nove meses, os hospitais militares receberam 1107 doentes com covid-19. Nos seus dois pólos de Lisboa e Porto, o Hospital das Forças Armadas acolheu 652 doentes oriundos das unidades hospitalares públicos. Também o Centro de Apoio Militar covid-19 no Hospital Militar de Belém, à Ajuda, em Lisboa, recebeu 455 doentes. Com o passar do tempo, a capacidade destes hospitais foi sendo aumentada.

Inquéritos epidemiológicos

O aumento dos casos no final do ano passado criou uma grande necessidade de rastreadores para realizarem inquéritos epidemiológicos pelo telefone. Os militares criaram equipas para integrarem esta plataforma trace covid e, em Dezembro, o PÚBLICO visitou as duas salas do Centro de Informação Geoespacial do Exército, onde 15 militares seguiam a pista dos contactos de infectados pelo coronavírus. As equipas militares fizeram, até 7 de Janeiro, um total de acumulado de 86.014 inquéritos epidemiológicos. Nessa data estavam a operar 22 equipas, em apoio às ARS do Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e Alentejo, num total de 433 militares.