Portugal nos cuidados intensivos

Pensar que de uma sessão improvisada, convocada quase de véspera, pode emergir um consenso científico é não perceber o que significa esse consenso, nem sequer – o que é pior – perceber a natureza da ciência.

Nesta crise sanitária que nos aflige, houve falhas dos decisores políticos, as quais, pelo menos em parte, têm a ver com deficiente ligação entre governantes e cientistas. Nos países em que a ciência está bem enraizada, os políticos ouvem os cientistas por mecanismos institucionais: existem conselhos colegiais para que a melhor resposta da ciência chegue a quem tem de decidir. Nós não temos na covid-19 uma comissão de especialistas de várias disciplinas que dêem pareceres independentes, depois da necessária discussão interna. Gostava de ter visto os cientistas de áreas da saúde, que os temos com méritos indiscutíveis, reunidos num conselho com um porta-voz que representasse a ciência, sem compromisso com a política. Não havendo, a ciência está, como disse Constantino Sakellarides, ex-director geral da DGS, a ser “invocada em vão” (DN, 24/1).