Índice alimentar da FAO atinge valor mais alto desde Julho de 2014

Indicador mensal do organismo da ONU que mede o preço mundial dos principais alimentos aumentou em Janeiro para fasquia mais elevada dos últimos seis anos e meio. Está a subir desde Junho

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Nelson Garrido

O índice alimentar da FAO – Organização para a Alimentação e a Agricultura, que monitoriza a média de preços de cinco grupos de produtos alimentares (carne, lacticínios, cereais, óleos vegetais e açúcar) como bens transaccionáveis em todo o mundo, subiu 4,3% em Janeiro de 2021, para uma média de 113,3 pontos (sendo 100 igual à media do triénio 2014-16). Em comparação com os 102,5 pontos com que começou 2020, o índice alimentar da FAO cresceu 10,5% nos 12 meses seguintes.

De acordo com a entidade da Organização das Nações Unidas para a agricultura e alimentação, esta é a média mensal mais elevada desde Julho de 2014 atingida pelo índice alimentar. E é, também, o oitavo mês consecutivo em que o indicador da FAO cresce em cadeia (face ao mês imediatamente anterior), o que situa o reinício da subida do preço das commodities alimentares no quarto mês da pandemia, depois da declaração de 2 de Março. Foi a partir da data oficial da declaração de pandemia mundial que a disrupção nos transportes começou, com consequências duradouras na produção e comércio globais.

Segundo o comunicado da FAO enviado esta quinta-feira às redacções, a subida de Janeiro passado foi sobretudo impulsionada pela média de preços mundial dos cereais, óleos vegetais e açúcar. Analisar cada um dos cinco sub-índices alimentares da FAO é também percorrer as consequências que a pandemia pode ter no fluxo normal do comércio global, nomeadamente através de medidas de protecção de reservas agro-alimentares por algumas nações fornecedoras mundiais. 

No caso dos cereais (como trigo, milho, cevada, arroz e sorgo para consumo final mas também para consumo intermédio na produção de outros alimentos e bebidas), o sub-índice registou um aumento de 7,1% face a Dezembro, com o milho a apresentar uma subida abrupta de 11,2%. O índice de preços deste cereal, usado na base alimentar de muitas populações em todo o mundo, terminou Janeiro 42,3% acima da média de um ano antes.

A FAO justifica a subida do valor do milho medido pelo índice com a conjugação de “um fornecimento global cada vez mais escasso”, com “compras substanciais pela China”, uma das poucas economias que terá crescido em 2020, “com uma produção menor do que a esperada nos EUA, e pela “suspensão temporária de exportações de milho na Argentina”.

No caso do trigo, a subida de 6,8% é explicada pela “forte procura global” que coincide com a expectativa dos mercados de que haja uma redução da venda externa pela Rússia – um dos maiores produtores mundiais – quando, em Março próximo, as taxas alfandegárias sobre a exportação deste cereal (assim como de milho e cevada) duplicarem, segundo a FAO.

Na Indonésia e Malásia, o excesso de pluviosidade, mas também “a escassez de mão-de-obra de trabalhadores migrantes”, levou a uma “produção de óleo de palma mais reduzida do que a esperada” e, na Argentina, “greves prolongadas” reduziram a disponibilidade de óleo de soja. O indicador da FAO que monitoriza os preços mundiais de óleos vegetais aumentou assim 5,8% em Janeiro, para o valor mais elevado desde Maio de 2012.

No açúcar, o sub-índice aumentou 8,1% face a Dezembro de 2020, fruto de uma “forte” procura da importação global, de receios acrescidos sobre a “fraca disponibilidade” mundial, e de um maior pessimismo sobre as previsões para as campanhas na União Europeia, na Rússia, Tailândia e alguma preocupação com o tempo excessivamente seco em algumas partes da América do Sul.

No índice que avalia os preços de exportação do leite e derivados, o crescimento mensal de 1,6% está sobretudo associado, justifica a FAO, a um maior volume de compras da China, em preparação do Novo Ano Lunar (em meados deste mês) e uma diminuição dos stocks para exportação da Nova Zelândia (uma das maiores fornecedoras mundiais).

O índice da FAO para a carne aumentou também, 1%, face ao último mês de 2020, impulsionado pela procura de carne de aves, “especialmente do Brasil”, face a focos de gripe aviária em alguns países europeus, que levaram a uma redução da produção e das exportações.