A hipocrisia de alguns desgorgomilados em tempo de pandemia

É cobardia degenerada atribuir a este Governo toda a responsabilidade por esta agudização da pandemia. Tem a sua, mas que todos se lembrem que todos os partidos entenderam que deviam comportar-se irresponsavelmente. Todos foram favoráveis à liberalização dos contactos natalícios.

Portugal está, neste momento, mais desgarrado pela pandemia, embora com elementos constitutivos (fronteiras, língua, cultura) que podiam fazer dele um país como nenhum outro na Europa. Não precisa da prisão perpétua para abafar autonomias ou independências. Do Minho ao Algarve, a unidade é total, dando a volta aos arquipélagos.

Desgarrado ainda no sentido que há uma enorme parte do país que é uma espécie de res nullius, onde as populações à medida que envelhecem vão ficando com menos serviços (CTT, CGD, Centros de Saúde, farmácias), com o coro de galfarros indignados contra o excesso de Estado, pois como é sabido não são estes os velhos que interessam para dar lucro, como, por exemplo, os que vêm de outros países para o Algarve e trazem libras. Ademais, os nossos velhos entram nos lares entregando as reformas que às vezes não chegam para poderem ir morrer.

E Portugal tem há séculos a nossa velha e sempre formosa Lisboa, o nosso centro de tudo. Mesmo sem Império, a Lisboa tudo vem ter. Até de Bruxelas. Daqui sai pouco. Há uma linha de água que se perde quando nos afastamos algumas dezenas de quilómetros do mar para o interior. A partir daí é um deserto pontuado de velhos casarios a aguardar pela erosão implacável do tempo.

Aliás, o resto do país já não se interessa pelo seu país, apenas por Lisboa. O sonho de cada jovem é fugir para os bairros de Lisboa. Fugir. Nas suas aldeias não há nada, apenas velhos armazenados. Ninguém quer viver num país com aldeias onde só quase se morre, e não se nasce.

Já se fugiu de um país que dava miséria e de todo o lado se saltaram os muros. Agora os novos não querem morrer de inação. E os velhos querem sossego para partirem.

A somar a esta dura realidade, o país não precisava de uns tantos galfarros a empestar a paisagem política com sentenças cheias de Estado a mais que logo se vê de que se trata é de Estado a menos.

Uma das técnicas de propaganda política é dizer, por exemplo, até à exaustão, no meio de crise pandémica terrível, num país cansado de maldades, que há Estado a mais. Assusta quem ouve que nem cabeça tem para sair do número de mortos e infetados.

Mais eficaz só a vergonha do sr. Ventura. Os hospitais, num país pobre que tira dinheiro aos contribuintes para o entregar aos banqueiros, tratam da saúde dos infetados. Os que entram recebem o que melhor tem o SNS. Fossem os outros serviços públicos capazes do mesmo desempenho. Mas, chegados aqui (a bengala passou da fundamentação das sentenças/acórdãos para a linguagem política), convém saber como foi possível.

Creio ser pacífico que o descalabro da pandemia resultou também dos facilitismos do Natal e Ano Novo. É bom ter presente que Costa/Temido decidiram aliviar as medidas com base nas auscultações aos partidos que sobre esta matéria foram unânimes no alívio.

É, pois, cobardia degenerada atribuir a este Governo a responsabilidade por esta agudização da pandemia. Tem a sua, mas que todos se lembrem que Chega, IL, CDS, PAN, PEV, PCP, BE, PSD, PS entenderam que deviam comportar-se irresponsavelmente. Todos foram favoráveis à liberalização dos contactos natalícios.

Muita gente tem morrido devido a uma dose generalizada de irresponsabilidade nacional. Um país único que podia ser mais coeso e cuidador e não um madrasto a quem vive fora das grandes cidades a aguardar a ida para os lares ou cuidados de saúde. E os novos a fugirem de tanta morte e com filhos para fazerem. Apesar disso, os desgorgomilados falam de Estado a mais. E de novas oportunidades de negócio. Talvez explique o permanente ataque a Temido.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico