Até Que a Vida Nos Separe: o casamento, o divórcio e (todas) as relações na RTP1

O que acontece quando a relação do casal que organiza casamentos começa a ser posta em causa? É esta a premissa da nova série da RTP, um drama familiar onde não há formas “certas” de amor e o fantasma do divórcio é combatido.

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Pedro Pina/RTP

Daniel e Vanessa Paixão organizam casamentos, mas o seu próprio relacionamento já viu melhores dias. Assumiram o negócio de família mais por conveniência do que por amor à profissão — e, pelo meio, tiveram de adiar uns quantos sonhos. Daniel deixou de lado uma possível carreira artística para passar os seus dias a fotografar as cerimónias matrimoniais e a felicidade programada dos outros; Vanessa, que sempre desvalorizou a realização pessoal para se concentrar no bem-estar da família, também está a questionar os princípios que têm norteado as suas escolhas (haverá momento mais assustador do que aquele em que pensamos que desperdiçámos os últimos 25 anos da vida?).

Estes personagens (interpretados por Dinarte Branco e Rita Loureiro) são os protagonistas de Até Que a Vida nos Separe, série que se estreia na RTP1 esta quarta-feira às 21h e que substituirá Crónica dos Bons Malandros na grelha do canal público. Com realização de Manuel Pureza e argumento de João Tordo, Tiago R. Santos e Hugo Gonçalves, esta é uma produção que procura nas três gerações da família Paixão e nas pessoas que casam diferentes visões sobre o significado do amor e as formas que este pode assumir. Um drama familiar com alguma comédia à mistura que, assinala o trio de argumentistas ao PÚBLICO, quer tentar mostrar que “não há uma fórmula” para as relações românticas e que, tal como um casamento pode ser o início de um novo capítulo, uma separação pode ser muito mais um recomeço promissor do que o fim do que quer que seja.

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Daniel (Dinarte Branco) sente um misto de mágoa e confusão quando Vanessa (Rita Loureiro) anuncia que quer o divórcio Pedro Pina/RTP

Quem desencadeia o conflito é Vanessa, que, conta Rita Loureiro, “está a passar por um processo de transformação muito forte e violento”. Acabou de fazer 50 anos, “aquela idade em que uma pessoa começa a fazer um balanço de vida e a ter noção de que já ultrapassou a metade do cronómetro”. Sofre muito “em silêncio”: alguém que nunca soube bem que rumo quis para si mesma — estudou Gestão e foi modelo durante a faculdade, mas teve dois filhos com Daniel e pareceu abdicar das ambições profissionais para se dedicar à família —, a protagonista sente que perdeu várias oportunidades e vivências por ter engravidado cedo.

O seu caminho volta a cruzar-se com o de Vasco (Albano Jerónimo), antigo amigo de Daniel que foi também o primeiro namorado de Vanessa. O reencontro fragiliza o casamento e traz consigo o fantasma do divórcio — Rita Loureiro refere que a sua personagem está a tentar “procurar uma outra forma de viver essa bagagem emocional” que partilha com o marido, que não está a passar pela mesma auto-análise de maneira tão pronunciada e que, como tal, sente um misto de mágoa e confusão (na sua cabeça, a esposa está a desistir daquilo que construíram).

Perante o clima de incerteza e vulnerabilidade emocional, os filhos acabam por trocar de papéis: Marco (Diogo Martins) tenta tirar o pai da depressão e da apatia, assim como Rita (Madalena Almeida) passa a ser o rochedo da mãe. Os jovens, cujos avós têm uma relação quase idílica — nunca deixam de estar em sintonia e o seu casamento já dura desde sempre —, também têm as suas visões próprias sobre o amor: Marco é assexual e Rita tem uma liberdade afectiva muito grande — “Quisemos evitar o cliché da rapariga que está sempre a sofrer por causa dos seus amores”, diz-nos Madalena Almeida.

Desconstruir os padrões normativos

Até Que a Vida Nos Separe tenta desconstruir algumas das ideias que habitualmente gravitam em torno do divórcio, sugerindo que este é mais uma transformação no relacionamento do que um ponto final — “Como é que a hipotética separação dos protagonistas apagaria o passado que criaram e viveram juntos? Têm dois filhos, têm anos de partilha; a compreensão e os laços nunca vão desaparecer”, frisam os argumentistas. Similarmente, o casamento é como que dessacralizado (“Casar é como comprar um carro: estás a perder valor desde o primeiro dia”, diz Vasco no primeiro episódio).

Os avós têm uma relação quase idílica — nunca deixam de estar em sintonia e estão casados desde sempre Pedro Pina/RTP
Marco (Diogo Martins) é assexual e Rita (Madalena Almeida) é uma mulher com uma liberdade afectiva muito grande Pedro Pina/RTP
Rita torna-se o rochedo da mãe (Rita Loureiro) Pedro Pina/RTP
O reencontro com Vasco (Albano Jerónimo) é um dos factores que leva a que Vanessa repense a sua relação com Daniel Pedro Pina/RTP
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A série mostra também relações que fogem dos padrões ditos normativos — tanto vemos casais heterossexuais como relacionamentos homossexuais e poligâmicos“Quando vemos a poligamia nos filmes, ela costuma surgir num contexto de rebeldia. É apresentada como se fosse uma coisa para outsiders, para freaks. Aqui não quisemos fazer julgamento nenhum”, revela Madalena Almeida.

“Não sei se é das comédias românticas ou dos modelos que herdámos dos nossos pais, mas há uma ideia de que as relações têm que existir de uma determinada maneira. Quisemos questionar isso, quisemos mostrar que não existe apenas uma forma de as pessoas estarem juntas”, reforça Hugo Gonçalves, que defende a importância de a ficção ajudar a estabelecer que não há expressões “certas” e “erradas” de amor.

O que também salta à vista em Até Que a Vida nos Separe é o modo como, mesmo com as barreiras geracionais, a família Paixão consegue dialogar. A empatia e a entreajuda nunca desaparecem, por mais que os pontos de vista e as personalidades sejam diferentes — Daniel não sabe se lucrará muito com a ideia da filha de instalar no telemóvel uma aplicação de speed dating, por exemplo.