E quem cuidará dos cuidadores?

Quem hoje cuida pode dizer quantas vezes forem precisas estar a viver um cenário de guerra nos hospitais. Sob risco de nunca saírem desta guerra, a mesma capaz de matar muitos anos mais tarde, mais do que nunca é essencial dar espaço e oportunidade para que os cuidadores falem sobre quanto têm passado, vivido, perdido.

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Paulo Pimenta

Dois estudos recentes, um do Kings College de Londres e, mais recentemente, outro do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, vêm chamar a atenção do público em geral e dos decisores políticos em particular para a realidade crescente do stress pós-traumático entre os profissionais de saúde. No meio de uma tempestade, quem trabalha em saúde vê-se tantas vezes impotente face à dimensão da presente pandemia a pontos de quebrar.

Às sequelas chamamos trauma e o stress que daí deriva. Mas se trauma e stress são apenas palavras, o dia-a-dia de quem repetidamente perde a batalha contra a morte é bem real. Para estes cuidadores já não há um lugar seguro, o vírus está em todo o lado, está na roupa, na cama, nas mãos, no corpo, na porta, na rua, nas paredes do hospital, nos doentes e colegas, no café, no carro, à ida para casa, à espera, sempre à espera e não se vai embora.

Ansiedade? Medo. Medo de quando chegar a sua vez, a vez do ventilador à porta da boca e os colegas a dizerem, não, a mentirem, mas todos mentem, têm de mentir e estão fartos de mentir, estão fartos de dizer que vai ficar tudo bem quando ninguém sabe se vai ficar tudo bem.

Obsessiva e compulsivamente limpam mesas e cadeiras, maçanetas e interruptores, não em casa, já há muito que não vão a casa, já perderam a conta dos dias, dos meses sem verem o outro do lado de lá, os miúdos sem pais nem mães, os pais sem filhos nem filhas.
E porque querem tanto esta abraço outra vez, os cuidadores limpam tudo, lavam tudo, esfregam tudo, o corpo esfoliado à força da escova, as roupas quando chegam a casa, os lençóis todos os dias, os pés da cama, a cabeceira, o lavatório e todas as loiças da casa de banho várias vezes, muitas vezes. 

Não conseguem dormir, não querem, não querem fechar os olhos, os internados estão todos à sua frente ainda de máscara na boca a falar por gestos, todo o cansaço no corpo, mas o olhar, o olhar tranquilo a querer reconfortar, porque o pânico está no olhar de quem cuida, vive no olhar de quem cuida, não conseguem mentir, conhecem a morte como ninguém. 

A coragem do olhar dos mais velhos a dizer “Que falta faço eu?”, a pedir para que as camas sejam dadas a outros, aos mais novos, a vida pela frente. Mas o que fazer se todos fazem falta, se os cuidadores juraram guardar a vida humana acima de todas as coisas e afinal de que valem todas as juras do mundo se todos os dias passam os dias a fugir da morgue, a mesma morgue com a boca escancarada pronta a engoli-los no mais rápido dos pesadelos? 

Talvez, talvez se houvesse mais médicos, mais enfermeiros, mais camas, mais ventiladores, mas não há. E por mais que digam aos cuidadores que não falharam, por mais que lhes digam que fizeram o que podiam, a verdade é que falharam, ou assim pensam, não fizeram tudo o que podiam e ninguém, mas mesmo ninguém, os pode convencer do contrário. 

O juramento Hipocrático, do qual retirei o seguinte excerto, fala por si: “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade; a saúde e o bem estar do doente serão as minhas primeiras preocupações; respeitarei a autonomia e a dignidade do meu doente; guardarei o máximo respeito pela vida humana...”

Quem pode, guarda a própria vida e para os profissionais de saúde sobreviver é a maior injustiça. Mas para quê quando os dias são passados na impotência de ver os outros partir, os pacientes, amigos, colegas, família, não há ninguém que não tenha perdido alguém. Marcados, não são mais do que Caronte perdido no verdadeiro inferno de estar vivo. 

Quem hoje cuida pode dizer quantas vezes forem precisas estar a viver um cenário de guerra nos hospitais. Sob risco de nunca saírem desta guerra, a mesma capaz de matar muitos anos mais tarde, mais do que nunca é essencial dar espaço e oportunidade para que os cuidadores falem sobre quanto têm passado, vivido, perdido. A depressão, o abuso de álcool e outras substâncias são, infelizmente, um destino comum nestes casos. Urge oferecer ajuda especializada a quem hoje tudo faz para salvar vidas. Urge autorizar os cuidadores a falaram sobre o que os afecta e como, ajudar a fazer o luto de tantos, um luto imenso depois de tantos meses de luta.

A terapia comportamental assume aqui um papel preponderante ao contextualizar as experiências vividas. Porque, com juras ou sem juras, os cuidadores fizeram mesmo tudo o que podiam. Nós, que os vemos do lado de fora, sabemos disso. Eles não. A terapia de grupo é outro salva-vidas para quem prefere partilhar a sua experiência com outros em iguais circunstâncias.

É essencial compreender. Para poder aceitar. E medicar se assim for preciso. Porque estabilizar o humor pode ser preciso. Negar a necessidade premente de ajuda psicológica a quem está no meio da guerra é não só negar os estudos agora publicados mas também negar metade do que somos, não apenas carne e osso mas pensamento e sentimento. 

Caso contrário, teremos uma geração semelhante à saída da guerra colonial, incapaz não só de falar sobre a guerra mas desautorizada pelas normas sociais e morais de falar sobre a guerra. “Já passou”, “Faz-te um homem”, quando nunca passa, vive connosco debaixo da pele. Quem acusa nunca matou um homem. Quem hoje cuida acha que sim.