Quando a covid chega a nossa casa

O pior desta doença é a ansiedade que traz consigo — não conseguimos desprender-nos do aviso, repetido à saciedade, de que “tudo pode piorar de um momento para o outro”.

Foto
@designer.sandraf

Minha querida, querida Ana

A covid chegou a tua casa, e eu sinto mais do que nunca a distância e a impotência de não te poder ajudar. Isto parece aqueles pesadelos em que corremos, corremos, encontramos um esconderijo e ficamos muito quietinhos, a respiração suspensa, na esperança de que o inimigo não nos descubra, desatamos de novo a correr e numa esquina, exactamente quando inspirávamos de alívio, sentimos uma mão a agarrar-nos com força pelos colarinhos. Apanhou-nos. Num primeiro instante somos tomados por uma enorme sensação de alívio. Já está. E depois instala-se o pavor.

Normalmente nesse momento acordamos, e embora a sensação de peso fique connosco todo o dia, a realidade vai-se encarregando de afastar o pesadelo, martelando-nos na cabeça que afinal não passou de um sonho. Mas aqui não. E o pior desta doença é a ansiedade que traz consigo — não conseguimos desprender-nos do aviso, repetido à saciedade, de que “tudo pode piorar de um momento para o outro”, que é uma doença traiçoeira, que engana e não segue um percurso linear.

Mas calo-me já. Quero é saber do E., se as dores de cabeça estão menos insuportáveis, e de ti, que por enquanto estás bem, felizmente. Que contente me sinto por teres as gémeas contigo, estão tão crescidas e ajudam tanto.

Conta-me tudo. Porque, neste momento, tudo o resto é irrelevante para mim.


Querida Mãe,

Conto-lhe tudo, aqui da frente da batalha. Às vezes, esta nova realidade permanece relativamente arrumada, disfarçada entre as tarefas, as banalidades, os memes de humor que vamos partilhando no WhatsApp. Mas há momentos em que me apanho a ver a situação de fora e não sei se hei-de rir ou chorar com o quão surreal tudo isto é. Nem sei por onde começar... No meu quarto? Que agora tem dois colchões no chão e quatro crianças para que o pai possa esta noutro quarto sozinho? No gesto, que me arrepia, de ir de máscara deixar um tabuleiro a uma pessoa de quem gostamos e que, doente, precisava da nossa companhia mais do que nunca? Nos telefonemas com o SNS? Na auto-avaliação constante? Será que é hoje que me vou sentir mal? Será que estou com falta de ar? Na catastrofização nocturna: “E se ficarmos os dois mesmo mal ao mesmo tempo, quem é que toma conta dos miúdos?”, “Será que é ele que vai para o hospital, ou serei eu?...”. Ou nas mensagens que me comovem, porque sinto na urgência das vozes a vontade de fazer, ou trazer, o que for preciso para nos ajudar (e não será esse o melhor sentimento do mundo, e o pior quando não se o tem?).

Ou talvez, mãe, fosse melhor começar por lhe falar nas coisas mais banais, mas que não deixam de ser reais: na roupa, na comida, no entreter, acalmar, vigiar, na arrumação que não tem fim e na tentativa de continuar a dar aulas online com um miúdo ao colo e metade do cérbero ansioso pelo “paciente” do quarto ao lado.

Mas depois há outro lado. Agora estamos todos bem. Sim, tudo pode complicar-se. Mas, se formos honestos, quando é que não pode? Essa pequena verdade é difícil de aceitar, mas traz coisas boas. Mummy, há momentos em que me sinto bem porque me estou a sentir bem e, de repente, estou no jardim a fazer com o mini E. o castelo de areia mais espectacular de sempre. Claramente evitamos ao máximo o sofrimento, a dor e a morte, mas é incontornável de que precisamos delas para sentir a alegria, a saúde e a vida.

Por isso por agora, mãe, pode sossegar. Independentemente do que se passar amanhã, estamos juntos e, com mais ou menos dores de cabeça, estamos aqui. Vou tentar concentrar-me nisso. E, acredite, faz toda a diferença saber que está aí.

Obrigada!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.