Medo, ele mesmo

Num cadeirão colocado aos pés da cama de uma utente agónica, um homem anafado de rosto vermelho passava um lenço de pano de uma mão para a outra num gesto mecânico. “É a minha senhora”, disse-me com os olhos cheios de água. “Está a morrer com o vírus”

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"Tenho sérias dúvidas de que aquela senhora volte a ter uma marcha independente. E sabem quem lha roubou? O medo" Daniel Rocha

Olho para o espelho e percebo que a miúda que antes me costumava olhar de volta já não mora aqui. Confesso que tenho dificuldade em reconhecer a mulher morena de olheiras marcadas que me encara agora. Numa observação mais atenta percebo que preciso urgentemente de depilar o buço e que a zona circundante à minha boca se encontra cheia de pequenas borbulhas. Intencionalmente ignoro os pontos negros no nariz e a desgraça estética em que se transformaram as minhas sobrancelhas, mas sou incapaz de não me focar nos cabelos, marcados a meio pelo elástico que os prendeu durante as últimas seis horas e que lhes conferiu um formato de supertubo digno de ser surfado por qualquer Gabriel Medina desta vida.