O dicionário das pessoas não-autistas

“Fofinhoso não existe no dicionário”, disse eu à minha filha, e ela começou a chorar. Como é que lhe podia explicar que uma das suas palavras afectivas e divertidas não existem? Foi assim que nasceu o nosso adicionário — onde constam as palavras que adicionamos ao dicionário “oficial” —, o das pessoas não-autistas.

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Sigmund/Unsplash

“Fofinhoso não existe no dicionário”, disse eu à minha filha, e ela começou a chorar. Como é que lhe podia explicar que uma das suas palavras afectivas e divertidas não existem? “Vamos criar um dicionário nós, para apontarmos e definirmos as palavras que vamos criando”, respondi eu. Foi assim que nasceu o nosso adicionário — onde constam as palavras que adicionamos ao dicionário “oficial” —, o das pessoas não-autistas.

Eu e a minha filha somos autistas. Aos 43 anos, cheguei ao meu diagnóstico através do dela, como é comum para muitas mães e pais no espectro do autismo. Também é comum as crianças autistas inventarem palavras. Mas é menos comum que as suas palavras, e os significados e sentidos que criam, sejam levados em conta. Infelizmente, no caso das pessoas autistas adultas, também.

Recentemente assistimos nos media a um episódio triste onde novamente a palavra autista foi usada como um adjectivo pejorativo, querendo significar “alheamento da realidade”. A defesa do comentador e do jornal onde o texto foi publicado foi que a palavra foi usada no seu sentido popular e não no seu sentido médico. Então fui visitar um dicionário online de referência, a Infopédia:

Todas as pessoas cuidadoras de crianças autistas já se depararam com a expressão “Está no mundinho dela”. Como se não fossem deste mundo. Mas são. As pessoas autistas estão profundamente ligadas com a realidade, pois são frequentemente assoberbadas por mais informação do mundo que lhes chega através dos seus sentidos, que processam ao seu ritmo. Na neurodiversidade de formas de cognição humana, as pessoas autistas constituem uma neurominoria. Estas palavras — neurodiversidade e neurominoria — também não existiam. Foram inventadas por autistas há cerca de 20 anos, notavelmente pela socióloga autista Judy Singer, e integram o léxico de um movimento internacional de pessoas autistas que advogam pelos seus direitos. Hoje, já podemos encontrar a palavra neurodiversidade no dicionário:

Mas estas não são as únicas palavras que tiveram de lutar para entrar no dicionário das pessoas não-autistas. A palavra capacitismo também é uma ausência marcada no dicionário — a discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência. Felizmente, apesar da falta de palavras que limita a nossa expressão, existe uma lei, também ela pouco conhecida, a Lei nº 46/2006 de 28 de Agosto, que proíbe e pune a discriminação em razão da deficiência e da existência de risco agravado de saúde. Entre as práticas discriminatórias definidas conta-se a adopção de acto em que, publicamente ou com intenção de ampla divulgação, pessoa singular ou colectiva, pública ou privada, emita uma declaração ou transmita uma informação em virtude da qual um grupo de pessoas seja ameaçado, insultado ou aviltado por motivos de discriminação em razão da deficiência, cujas queixas podem ser enviadas ao Instituto Nacional para a Reabilitação.

Há muitas formas de se estar “alheado da realidade”. Há muitas palavras que poderiam ser encontradas para descrever o que o autor do texto pretendia afirmar: a aparente indiferença de uma pessoa em relação às informações que circulam publicamente sobre o estado do mundo. Mas a indiferença não é uma característica do autismo. Essa indiferença pode ter outros nomes, como tem a indiferença perante o sofrimento das minorias e das pessoas desapoderadas causado por formas de opressão e silenciamento, tendo por base características biológicas e sociais — deficiência, raça, cor, sexo, nacionalidade, origem étnica, orientação sexual, identidade de género, estatuto socioeconómico ou outros factores. Em suma, todos os factores que desumanizam as pessoas — que desvalorizam formas de ser, de conceber e interpretar o mundo, de se expressar e comunicar.

Vamos ter de lutar pelas palavras para mudar os dicionários das pessoas não-autistas. Para que possamos compartir um léxico que nos una e que não nos separe. Para que eu e a minha filha possamos existir, pensar e falar. Para que o nosso mundo possa ser expandido e compartido.