Sem saúde mental não há saúde

Nem só as pessoas com história prévia de doença mental sofrem com a pandemia. Estudos recentes observaram o surgimento de sintomatologia ansiosa e alterações do humor em indivíduos saudáveis do ponto de vista mental.

Foto
"Reconhecer os nossos recursos, limitações e — quando necessário — pedir ajuda, é imperativo" Ahmad Odeh/Unsplash

A situação pandémica, que se instalou em Portugal em Março do ano passado e que se tem arrastado até aos dias de hoje, traduz-se em perdas singulares e na fragilização da saúde mental de quem a vive. É uma realidade que se agudiza pelo estigma associado, assim como pelo “abandono mental” vivido em Portugal, pautado pela ausência de uma estratégia integrada para a promoção da saúde mental e para a intervenção em caso de doença, num país que gasta 600 mil euros por dia em psicofármacos, mas no qual o acesso a acompanhamento psicológico é extremamente limitado.

Trata-se de um modelo “gasto” que não segue as boas práticas nem a evidência científica e clínica. Hoje mais do que nunca, é urgente que a saúde mental deixe de ser a parente pobre da saúde, como se fossemos só — e apenas — corpo, clivando da nossa existência e negligenciando aquilo que nos define e caracteriza enquanto pessoas: mente e emoções.

A investigação realizada ao longo da pandemia, permite-nos ter já alguma noção do real impacto da mesma no bem-estar psicológico. Uma das principais conclusões é o agravamento dos sintomas em muitos dos indivíduos diagnosticados com perturbações psicológicas prévias. Para isso, importa referir que um em quatro portugueses sofre de um problema de saúde mental, posicionando Portugal como o segundo país da Europa com maior prevalência de doenças mentais (o primeiro lugar é ocupado pela Irlanda do Norte).

Mais: Nem só as pessoas com história prévia de doença mental sofrem com a pandemia. Estudos recentes observaram o surgimento de sintomatologia ansiosa e alterações do humor (nomeadamente humor deprimido), mesmo em indivíduos saudáveis do ponto de vista mental. O medo do contágio, o risco de infecção percebido, a incerteza, a desconfiança generalizada e o isolamento social, entre outras variáveis, estarão na base do adoecer psicológico de todos nós. Os índices de felicidade e de satisfação com a vida têm vindo a baixar para a generalidade da população mundial.

Fadiga da Pandemia

A Fadiga da Pandemia é um conceito que emergiu na “era covid-19” e que diz respeito à sobrecarga sentida pelas alterações do nosso quotidiano, que tanto esforço de adaptação requerem. A incerteza e a imprevisibilidade, que obrigam a uma reorganização constante, podem conduzir a um desincentivo na continuação do respeito e seguimento das orientações impostas.

Mecanismos de negação surgem neste contexto, como uma estratégia de defesa mental, de fuga da situação ansiogénica/angustiante, que leva ao incumprimento das regras, dificultando o controlo da pandemia. Reforçando a situação geradora de desconforto psicológico, a negação revela-se um mecanismo ineficaz, que acarreta um custo incalculável em termos de saúde pública.

Uma sociedade em luto

A covid-19 faz com que vivamos hoje numa sociedade com muitos mais óbitos. Logo, uma sociedade com muito mais pessoas a lamentar perdas de entes queridos. Sabemos que os processos de luto são sempre dolorosos, pelo que facilmente entendemos que temos hoje mais pessoas a sofrer do ponto de vista psicológico do que antes.

Um dos factores determinantes no luto diz respeito à despedida da pessoa que morre, bem como aos rituais de morte. Dados os contornos da própria pandemia, ambas as dimensões estão fortemente limitadas — com ausência de visitas a doentes/ou visitas muitíssimo limitadas, com funerais de caixão fechado e a limitações quanto ao número de participantes nos mesmos.

Outra variável bem conhecida pelos profissionais de saúde mental, como sendo promotora de um luto mais saudável — e, portanto, menos longo e danoso —, diz respeito à convicção de tudo ter sido feito pelo outro que partira, e que a sua morte se deveu a uma inevitabilidade. Ora, com a pressão no SNS e o seu colapso, muitas mortes terão ocorrido e irão ocorrer sem esta garantia (real ou percepcionada), o que poderá ser responsável por sentimentos de revolta, injustiça e culpa, que tornam ainda mais dolorosa a vivência da perda de alguém próximo.

Em suma, existem/existirão mais lutos a serem feitos, e em condições mais penosas, aumentando a probabilidade do adoecer psicológico.

Profissionais de saúde da primeira linha

Esgotados e em confronto continuado com dilemas éticos, os profissionais de saúde da primeira linha são levados a tomar decisões que nunca antes se viram forçados a tomar. Sintomas compatíveis com stress pós-traumático e quadros de burnout têm surgido em profissionais de saúde da linha da frente, nos casos mais graves. Mesmo nos mais resilientes, verifica-se cansaço extremo e alterações de humor.

Para muitos destes profissionais, acresce o peso de sentirem que negligenciam os seus, em particular os que têm filhos e os que estão ou estiveram afastados da família.

O impacto nas famílias, crianças e jovens

Com a necessidade de as escolas serem encerradas (com todas as consequências e limitações no processo de aprendizagem e socialização), elevam-se os desafios para os menores e para as famílias.

A situação é mais exigente em famílias com crianças pequenas. Há hoje o entendimento generalizado de que um progenitor em teletrabalho, consegue compatibilizar a sua função com a prestação de cuidados a uma ou mais crianças com idade inferior a 12 anos. Uma lógica que aos olhos dos profissionais de saúde mental e de desenvolvimento infantil é questionável.

Birras, sentimento de rejeição, exposição a práticas parentais menos positivas, ansiedade ou dificuldades na gestão de conflitos, serão algumas das consequências prováveis. Para os pais, o stress acrescido, os sentimentos de culpa, a sensação de fracasso constante, decorrente de um esforço de conciliação entre vida profissional e vida familiar diário (que será em muitos casos pouco eficiente), geram sentimentos de frustração e incapacidade.

Os adolescentes, que se encontram numa fase de desenvolvimento de construção de identidade — cuja a importância é ímpar —, são já aclamados como a geração pandemial (que junta pandemia com millennial). De acordo com as conclusões do estudo Global Risks Report 2021, estes jovens estão agora tendencialmente mais expostos a fragilidades do foro psicológico, formativo e económico. Uma geração desprovida do seu palco social, onde acontecem a maioria das suas aprendizagens e são vividas as experiências fulcrais desta etapa de vida, que ficará profundamente marcada por desafios acrescidos, decorrentes da pandemia.

É um campo fértil para a acentuação de desigualdades sociais, sendo as famílias, as crianças e os jovens socialmente mais vulneráveis, os mais afectados.

O que podemos fazer?

A saída desta situação passa pela união num esforço colectivo, amparando os mais frágeis. Reconhecer os nossos recursos, limitações e — quando necessário — pedir ajuda, é imperativo.

É urgente cuidar da saúde mental. É urgente que o façamos já. De uma forma sustentada e multidisciplinar, de modo a impedir o agravamento das debilidades já visíveis e a dotar as pessoas de ferramentas e recursos para lidarem com a complexidade dos dias que vivemos. Urge pensar não só no aqui e no agora, mas também no futuro próximo. Intervir já e de forma continuada, trará mais celeridade na reabilitação da sociedade no período pós-pandemia. Sem saúde mental, não há saúde.

O SNS24 disponibiliza uma linha de aconselhamento psicológico, com o objectivo de prestar apoio a utentes e profissionais de saúde: 808 24 24 24. A Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza uma série de documentos de apoio à situação que atravessamos, que podem ser consultados através do site. Um psicólogo pode ajudar.