Opinião
Qual a maior ameaça para o CDS?
“Há um facto novo que não se deve desvalorizar e que representa para o PSD, e ainda mais para o CDS, uma questão séria”. Quem o disse foi Paulo Portas, ex-líder do CDS, na noite eleitoral, a propósito de o líder do Chega, partido de extrema-direita conseguir ter um resultado de “dois dígitos”.
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Mas o Chega não é a única ameaça a ter em conta. A Iniciativa Liberal, criada em 2019, teve nas legislativas desse ano 67 mil votos. Ano e pouco depois, nestas presidenciais, o seu candidato, Tiago Mayan Gonçalves, teve 134 mil votos. Dada a campanha que fez, esses votos não se deveram ao carisma do candidato mas ao projecto que ele representou na corrida eleitoral. Imaginemos que o ritmo de crescimento da IL se manteria assim (o que nunca seria assim tão linear e fácil): nas próximas legislativas, em 2023 (se o calendário normal for cumprido) poderia ter o dobro dos votos. Isso significa que, no espaço de uma legislatura, o peso da IL poderá igualar ou superar o do CDS (que teve 221 mil votos em 2019). E, se olharmos para o mapa eleitoral, verifica-se que CDS e IL partilham muito do mesmo eleitorado: urbano e com habilitações (há muito que desapareceu o antigo CDS com raízes locais que durante vários anos deu várias câmaras aos centristas).
Isso talvez explique a pressa de Adolfo Mesquita Nunes em avançar e Nuno Melo em ficar, por ora, no banco. “Quando o mandato de Francisco Rodrigues dos Santos terminar, será demasiado tarde para reagir, com os partidos emergentes a consolidar-se cheios de entusiasmo e o CDS a decair, projectando uma imagem de erosão”, escrevia Adolfo Mesquita Nunes esta semana no Observador, pedindo que se repensasse a liderança do CDS.
Ao PÚBLICO, Nuno Melo chega mesmo a comparar o momento actual a 1998, quando Paulo Portas ganha a liderança do partido após Manuel Monteiro se ter demitido depois do desaire das autárquicas. Ou seja, estamos perante um recentramento ideológico do partido. Pela ala liberal? Talvez, embora o sinal ontem dado com a demissão de Filipe Lobo d’Ávila mostre que também a tendência mais democrata-cristã está insatisfeita e pode vir a unir esforços aos liberais.
E Francisco Rodrigues dos Santos? Tem do seu lado uma vitória eleitoral nos Açores, não pela percentagem de votos mas por ter chegado ao governo regional com um acordo com o PSD. O líder centrista estará disposto a fazer como Rui Rio, quando foi desafiado por Luís Montenegro ao fim de um ano de mandato? Provavelmente, sim, a avaliar pela sua primeira reacção: a de que não tinha “medo de ir a votos” ao mesmo tempo que desafiava os críticos a desencadearem um processo estatutário de antecipação de congresso electivo.
Tem também do seu lado uma disponibilidade clara de chegar ao poder no Governo da República com o PSD e o Chega, à semelhança do que fez nos Açores. Acordos pré-eleitorais, nem pensar, diz o actual líder do CDS, mas não rejeitará “um voto pela sua origem”. O PSD já não tem tanta certeza assim - tem dias - de querer voltar a dar a mão ao Chega. E o novo desafiador de Francisco Rodrigues dos Santos, o que pensa sobre isto? O futuro do CDS está em discussão e talvez essa discussão ajude também a definir o futuro do PSD.