Os amores do Paiva

“Subindo o Douro de barco até Castelo de Paiva, e depois o rio Paiva, vamos encontrar, para além da frondosa ilha dos Amores duriense, uma paisagem e uma vegetação quase tropical. Parece que estamos na Amazónia”, escreve o leitor José Vieira Mendes.

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José Vieira Mendes
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O último fim de ano foi obviamente diferente dos outros por causa da pandemia, mas isso não nos impediu de, antes do confinamento e da proibição de circular entre concelhos, viajássemos de carro de Lisboa até à região verde do Douro, para encontrar um local confortável e bem quentinho para ler e relaxar e sobretudo ficar em segurança e sem riscos de contágio. A escolha do hotel Douro 41 foi, aliás, uma excelente sugestão da Fugas.

A nossa passagem do ano para 2021 foi tranquila, com um bom jantar servido no hotel e logo que começou a animação e a natural alegria de descompressão — de um ano difícil que passou, e de outro que se avizinhava com alguma esperança — decidimos ir descansar para o quarto panorâmico, dormir bem, para no dia seguinte fazer um passeio de barco pelo rio Douro, tão sereno, que parecia um espelho de água.

Depois de uns dias de chuva intensa, a meteorologia prometia sol para o Ano Novo. Acordámos com a bela paisagem de uma neblina sobre o rio e com um frio de rachar. Bem agasalhados, não sem alguma hesitação por causa do frio, tal como combinado antecipadamente, decidimos embarcar na lancha do hotel e subir o Douro em direcção a Castelo de Paiva, passando pelas pontes de Entre-os-Rios e depois subindo mesmo até à confluência com o Paiva, um dos rios mais bonitos de Portugal.

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A primeira grande surpresa foi encontrar a ilha do Outeiro, ou ilha do Castelo, mais conhecida por ilha dos Amores, localizada exactamente onde o rio Paiva cruza o Douro. Contudo, navegámos primeiro pela foz do Paiva adentro, até aos primeiros desníveis do curso de água, mesmo até onde podia chegar a pequena lancha. E aí a passagem natural é deslumbrante e mágica: vemos os falsos meandros — curvas ligeiramente acentuadas — formados pela passagem do rio e pequenas quedas de água vindas das margens.

Num deslizar suave pelo rio coberto de névoa, com menos vento e frio, encontramos um pequeno paraíso: um adernal, (o início do Adernal da Retorta), uma espécie de bosque tropical que cobre as margens do rio e que deu quase a sensação de estarmos a navegar em plena Amazónia. A vegetação é dominada pelos adernos (uma planta que pode atingir 20 metros de altura, quase do tamanho de uma árvore), mas também por outras belas, aromáticas e selvagens espécies de grandes arbustos, como o medronheiro e a murta. O silêncio e os pequenos ruídos da natureza com a água a correr dão uma sensação única, sobretudo quando se desliga o motor da lancha.

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O regresso fez-se então em direcção à ilha dos Amores, que é também um sítio imperdível. Quem quiser ir por terra, o melhor mesmo é dirigir-se à aldeia de Fornos (Castelo de Paiva) e apanhar um pequeno barco na praia (fluvial) do Castelo, que no Verão e em condições normais deve ter uma enchente de pessoas, dada a sua beleza e extraordinária localização. De qualquer modo, para nós fazia parte do percurso uma visita à ilha dos Amores, que não é a mesma de Camões.

Ao contrário da idílica e oriental ilha do poeta d'Os Lusíadas, este pedaço da terra duriense está associado, na lenda, a uma trágica história de amor. Reza a lenda que um lavrador e uma fidalga da região viveram uma história de amor ao nível de Pedro e Inês. Pelo que se conta, um nobre pediu a mão da fidalga, ficando o lavrador de coração partido ao saber que iria perder o amor da sua vida. Num acto de loucura, matou e atirou ao rio Douro o novo pretendente da sua amada. Com medo das consequências, fugiu para a ilha. Mas o amor pela jovem fidalga desafiava o perigo, decidindo voltar e pedir-lhe para ela viver com ele na ilha. Mas quando atravessavam o rio num pequeno barco, formou-se uma tempestade. Não sobreviveram e a história acabou. Nasceu a lenda e uma nova aura na ilha, que passou a ser dos Amores.

No entanto, além das personagens da lenda, a ilha dos Amores é em si uma excelente protagonista e inspiradora de qualquer história, já que proporciona um certo mistério e uma sensação de paz, tão perto e tão longe do mundo agitado da cidade, como, aliás, boas tomadas de vista para a fotografia ou cinema. E argumento até já existe!

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A ilha dos Amores é sobretudo um verdadeiro oásis no meio dos dois rios, recheada de plantas rasteiras, arautos e várias árvores altas e imponentes: carvalhos, oliveiras, freixos, juncos e tamargueiras, entre outras espécies. Tudo cabe harmoniosamente naquela ilha tão pequenina, que só tem um carreiro e que parece um coração! No topo da ilha está um pequeno castelo em ruínas (ou antes, uma torre), de onde se pode ver o Douro e o Paiva de vários ângulos, sobre o verde do arvoredo. Daí é possível ver ainda o belo casario disperso de três concelhos durienses: Castelo de Paiva, Marco de Canaveses e Cinfães.

Este local, onde não vive ninguém, visita-se em pouco tempo, mas apetece ficar deitado um bom par de horas a olhar o espelho de água, se não estivesse tão gelado. Há ainda algumas mesas montadas para piqueniques e as ruínas de uma ermida, descobertas há uns anos por arqueólogos. E, claro, um pequeno cais onde atracam os pequenos barcos, que no Verão devem andar num rodopio. A paisagem é bucólica e romântica, sobretudo no Inverno, e, tal como a ilha de Camões, também é o local ideal para nascerem novos amores, novas promessas e novas esperanças, que era o nosso caso, naquele primeiro dia de 2021.

José Vieira Mendes (texto e fotos)