Ato isolado, um libelo musical contra a precariedade: “Merecemos uma vida estável”

Luís Leitão assina como FOQUE um disco em que a electrónica e a canção de protesto se unem numa catarse destes dias que vivemos.

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Não é um disco motivado pela pandemia, mas sim por uma realidade que a pandemia agravou. O nome, Ato Isolado, explica uma parte, e as canções explicam o resto, com títulos como A vida não é uma festa, Bate o pé, Farto, Feliz pós-laboral, Precário ou Procrastino. O seu autor, Luís Leitão, assina-o como FOQUE, projecto que criou em 2017. Este é o seu primeiro álbum, que representa “uma catarse, retratando o estado da cultura nacional e o ano atípico que vivemos.”

Nascido em Gondomar, a 3 de Setembro de 1994, Luís Leitão criou desde cedo familiaridade com as artes, como explica ao PÚBLICO: “O meu irmão é guitarrista clássico e durante muitos anos acordei e adormeci a ouvir música erudita. Antes disso, tive um avô que fez teatro amador. Foram as minhas únicas pontes familiares com as artes.” Mas não foi isso que o levou directamente a ingressar na Academia Contemporânea do Espectáculo, no Porto: “Comecei, com os meus 15 anos, a fazer stand-up comedy, e isso durou quatro a cinco anos. Chegou um momento em que eu estava em Ciências e Tecnologias e achei que precisava de um complemento, uma ferramenta, para ser mais apto em palco. E achei que o mais indicado era ir para teatro.”

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Luís Leitão, ou FOQUE, fotografado para a promoção de Ato Isolado DR

O seu primeiro projecto musical chamou-se Baixo Soldado. Oficializou-o em 2015, mas já vinha de trás, tendo sido criado com os seus amigos de há vários anos António Correia, Luís Dinis e Tiago Fonseca. “Fizemos muitos concursos de bandas e foi precisamente nesse ano que ganhámos o do Avante! e o da Queima das Fitas [actuaram em ambos, em 2015]. Antes, só tínhamos tocado em pequenos palcos, no Porto e nas Caldas da Rainha, coisas muito pontuais.”

Teatro, poesia e FMI

Em 2017 lançou o seu primeiro EP, já como FOQUE, actuando no festival Bons Sons em 2018: “O Bons Sons foi uma experiência muito peculiar. Eu tinha um projecto de teatro de rua com o Rui Paixão, onde eu fazia música ao vivo, já com o FOQUE. E o que ali fizemos foi uma espécie de híbrido: estive cerca de duas horas e meia em palco, com um trecho do espectáculo de teatro, um concerto e no final ainda fiz um DJ set. Foi o maior showcase que tive até hoje.”

O nome do projecto, que passou a ser para ele uma espécie de alter-ego, nasceu do próprio conceito que o gerou: “A partir do momento em que criei o FOQUE, apercebo-me de que vou fazer muita coisa diferente. Não tinha, nem tenho, interesse em cingir-me a um género ou a um tipo de área. E achei interessante a ideia de focar tudo no mesmo sítio, quer seja as coisas que faço para teatro, cinema ou dança, quer seja o álbum em si e todo o trabalho à volta.”

A poesia, a par das experiências na stand-up comedy ou no teatro, também tem aqui relevo. No Baixo Soldado, Luís já tinha feito um tema a partir de um poema de Fernando Pessoa e em Ato Isolado usa samples das vozes de Agostinho da Silva, em A vida não é uma festa (“O homem não nasce para trabalhar, o homem nasce para criar, para ser o tal poeta à solta”) e de José Mário Branco, este retirado do tema FMI e adaptado em velocidade mais lenta para a canção Precário (“Sempre a merda do futuro, a merda do futuro. E eu, hã?”).

“Desde que comecei a estudar teatro, a maior parte das coisas que tenho lido é poesia, e poesia portuguesa. O FMI, para mim, é uma pedra basilar. Lembro-me que o ouvi no primeiro ano da Academia e é uma coisa que há-de ficar para sempre, porque me marcou mesmo. Já as conversas do Agostinho da Silva surgiram-me mais tarde. Mas são ambos demonstrativos daquilo em que eu acredito e daquilo que eu gosto.”

Agora, R&B e hip-hop

Em termos musicais, há duas influências basilares: “Na verdade, começo o FOQUE com vontade de fazer música electrónica pura e dura. As minhas referências eram mais Nicolas Jaar, Nick Murphy (na altura Chet Faker), James Blake, coisas desse género. E este álbum é uma mistura dessas coisas todas que eu tinha na bagagem, mas pegando também num José Mário Branco, num Fausto, num Zeca [Afonso], ou seja, é mesmo uma fusão da bagagem electrónica com essa coisa de cantautor/portuguesa/raiz.”

Neste momento, porém, já ouve outras coisas: “Estou mais ligado ao R&B e ao hip-hop e continuo a ouvir electrónica. Claro que o Fausto continua sempre lá, o José Mário Branco também e de vez em quando ainda vou ali tirar o pó ao B Fachada e tudo o mais. Mas o que ouço agora já tem outra vertente.”

Ato isolado, já disponível nas plataformas digitais, foi antecedido de dois singles e videoclipes lançados no You Tube, Rapidinha e Ausência, este gravado com Evaya e publicado em plena pandemia. A letra de Ausência reflecte o espírito geral do disco: No fim do mês, esperado/ Falta-me um pedaço/ Traço-me por trocos / Definho por dentro/ Porque eu não tenho tempo, não tenho dinheiro.” O mesmo em Precário: “Quero não ser precário/ Quiçá um salário/ Quero algo que me aguente.”

Pode parecer, mas não se refere só à situação actual das artes, como explica Luís Leitão: “Isso tem sido muito associado à precariedade da cultura. É uma vertente que está lá, mas o que motivou esse tema foi mais uma precariedade monetária e pessoal, de, como diz o José Mário Branco, querer ser feliz. Não me interessa propriamente se sou feliz a ser músico ou a ser carpinteiro. É uma questão de perceber que merecemos mais, merecemos ter uma vida estável.”

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Capa do disco ESTAMINÉ STUDIO

Enquanto Ato isolado aguarda por uma edição física, que deverá ser limitada (“uma coisa de coleccionador”), mesmo em plena pandemia Luís Leitão vai fazendo outros planos: “Para este ano, agora que o álbum está cá fora e já me consigo focar num próximo trabalho, que ainda não sei de todo o que será, tenho como objectivo afirmar-me mais como produtor. O que anda a fazer agora é mais trabalho colaborativo, com artistas estrangeiros e também nacionais.”