Vacinar sem ética

O que tem acontecido nos hospitais do SNS, nas instituições do setor privado e social, nos consultórios e outros locais de prestação de cuidados de saúde é inaceitável. É inaceitável e escandaloso.

O processo de vacinação seria um momento de esperança e um exemplo de civismo, justiça e equidade entre todos. A proteção das pessoas mais expostas, das mais vulneráveis e do resto da população permitiria atingir o patamar da imunidade de grupo e acabar com a pandemia a nível mundial.

Infelizmente, apesar do SARS-CoV-2 atingir toda a população da mesma forma, só os países mais ricos e mais poderosos estão a ter um acesso significativo às doses de vacinas, relegando as restantes populações para um segundo plano na luta contra este flagelo planetário.

É uma realidade a que nenhum de nós deverá estar alheio.

Em Portugal, a euforia inicial da vacinação foi substituída por um manto de desconfiança e estupefação, perante a aplicação dos critérios definidos pela task force para a vacinação e a definição dos novos grupos a vacinar.

É fundamental diminuir o impacto dos contágios junto dos profissionais de saúde como meio de reduzir os períodos de ausência laboral, devido às quarentenas ou mesmo às baixas por doença covid​-19. Mas também é importante que os profissionais de saúde possam oferecer a segurança aos seus doentes pelo facto de não estarem infetados e não serem um potencial veículo de transmissão do vírus SARS-CoV-2.

Incompreensivelmente, os critérios foram subvertidos nos hospitais públicos expondo situação de favorecimento e decisões de duvidosa moralidade e ética, na medida em que as prioridades de vacinação foram ostensivamente desrespeitadas. Por outro lado, os médicos que estão a trabalhar fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – a prestar um serviço essencial, tratando doentes e evitando ainda mais a sobrecarga sobre o SNS – estão a ser segregados e privados de um direito estipulado no plano de vacinação, inclusivamente reconhecido como tal em todos os países.

O que tem acontecido nos hospitais do SNS, nas instituições do setor privado e social, nos consultórios e outros locais de prestação de cuidados de saúde é inaceitável.

É inaceitável e escandaloso.

Os critérios de priorização definidos pela task force para a vacinação são claros: não discriminam alguém pelo seu vínculo laboral, por estar a trabalhar num hospital público, num hospital do setor privado, social ou militar, ou num consultório médico.

É compreensível que a complexidade do processo possa causar erros ou ineficiências, mas não o é quando existem sinais claros de parcialidade e de decisões de duvidosa moralidade na distribuição nacional das doses de vacinas, na sua priorização nos hospitais e junto dos médicos que prestam cuidados de saúde.

Não é aceitável iniciarmos a vacinação de grupos menos expostos ao risco de contágio, enquanto não forem vacinados todos os médicos e os outros profissionais de saúde.

O processo da vacinação tem de ser transparente, submetido ao escrutino público e responsabilizar quem o desrespeitou e continua a subvertê-lo.

A ministra da Saúde referiu, há dias, que é criminoso insinuar a inexistência de planeamento no combate à pandemia.

O que é verdadeiramente criminoso é o que está a ser feito com a vacinação dos profissionais de saúde.

A forma como está a decorrer o processo de vacinação contra a covid-19 tem sido uma demonstração gritante da falta de ética de alguns decisores.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico