Neonazi alemão condenado a prisão perpétua por assassínio de político da CDU

Tribunal não considerou o segundo acusado como cúmplice no crime. Walter Lübcke foi o primeiro político assassinado pela extrema-direita desde o fim da II Guerra.

Foto
Stephan Ernst EPA

Um neonazi alemão foi condenado à pena máxima possível na Alemanha, prisão perpétua, pelo assassínio de Walter Lübcke, um político regional. Mas nos media alemães há quem fale de um veredicto “agridoce": o tribunal não deu como provado que o primeiro acusado tenha atacado um refugiado iraquiano, nem conseguiu provar que o outro acusado tenha sido cúmplice, e este recebeu uma pena suspensa de 18 meses de prisão por posse ilegal de arma.

O tribunal considerou que o assassino, Stephan Ernst, 47 anos, matou Walter Lübcke por sentimentos extremistas e xenófobos, já que o autarca de Kassel defendia o acolhimento de refugiados. Ernst matou Lübcke a 2 de Junho de 2019, com um tiro disparado de perto, enquanto o político estava sentado no terraço de sua casa. O crime é considerado o primeiro assassínio de um político levado a cabo pela extrema-direita desde o fim do nazismo.

O ódio a estrangeiros de Ernst foi confirmado por um rol de antecedentes, desde quando tentou incendiar uma casa de acolhimento a famílias turcas com apenas 15 anos (estes ataques a casas que abrigam imigrantes ou refugiados são relativamente frequentes no país: em 2015 e 2016, por exemplo, houve um total de quase dois mil ataques a abrigos de refugiados, a maioria deles fogo posto).

Durante o processo, Ernst confessou ter morto Lübcke, depois disse que não tinha sido ele, e voltou a assumir que sim (numa das três versões diferentes acusou o outro arguido, Markus Hartmann, 44 anos, de ter disparado). Como havia ADN seu na camisa da vítima, a condenação de Ernst não foi surpresa.

Além da pena máxima, que admite liberdade condicional a partir de 15 anos de prisão, o tribunal destacou a “gravidade particular” do crime e previu uma potencial prisão preventiva subsequente. Ainda assim, o juiz presidente declarou que Ernst poderá trabalhar com um programa de prevenção de extremismo, o que poderá influenciar a imposição da prisão preventiva seguinte.

Se no caso de Ernst o veredicto seguiu de perto o que era pedido pela acusação, isso não aconteceu no caso de Hartmann, para quem a acusação pedia nove anos e oito meses de prisão por ajudar Ernst a cometer o crime, por o ter radicalizado e lhe ter oferecido apoio psicológico. Uma das testemunhas descreveu-os como uma dupla em que Hartmann era “quem pensava” e Ernst “quem fazia”.

“São livres para sair”

Walter Lübcke foi um político da CDU que apoiou – como vários políticos regionais – a decisão da chanceler, Angela Merkel, de receber refugiados, a maioria sírios, em 2015-16. Num encontro para explicar o acolhimento de refugiados à população local, começou a ser bombardeado por perguntas exaltadas, e a dada altura disse que no país se respeitavam os direitos humanos e que quem não quisesse fazê-lo “era livre para sair da Alemanha”.

Entre os participantes desse encontro de 2015, estavam Ernst e Hartmann. Hartmann, que tinha filmado o encontro, foi também que cortou as palavras de Lübcke, retirando-as do contexto, e as pôs online, onde viralizou, especialmente entre meios radicais.

Lübcke foi alvo de ameaças e chegou a estar sob protecção policial. Esta foi entretanto retirada, quando tudo parecia ter acalmado.

Ernst era conhecido das autoridades, mas quando arranjou um emprego, casou e teve filhos, estas deixaram de o seguir, pensando que tinha deixado as actividades mais extremistas.

No entanto, Ernst continuou a participar em marchas neonazis. Também distribuiu folhetos para o partido nacionalista xenófobo Alternativa para a Alemanha, que está a ser cada vez mais tido como um caso de ameaça à democracia e poderá por isso ser posto sob vigilância dos serviços secretos internos. Havia ainda suspeitas de que pudesse estar ligado ao grupo NSU, que levou a cabo uma série de assassínios, a maioria de pessoas de origem turca (uma de cada vez, em regiões diferentes do país, entre 2000 e 2007) e que só foi descoberto por acaso.

Muitos comentadores argumentavam que houve uma falha das autoridades em deixarem de acompanhar Ernst.

Florian Hartleb, autor do livro Lone Wolves (título da edição em inglês), em que aponta como raras vezes estes “lobos solitários” agem sozinhos, disse à emissora alemã Deutsche Welle que o assassínio de Lübcke mostra como as autoridades têm, desde há muito, subestimado a ameaça dos neonazis – focando-se mais, por outro lado, na ameaça islamista.

Há muito que as autoridades são acusadas de ser “cegas do olho direito”, ou seja, de não reconhecerem motivações de extrema-direita nos crimes. Há ainda casos de presença de membros da extrema-direita nas forças de segurança.

Os serviços de segurança interna estimam que haja 13 mil neonazis e membros da extrema-direita prontos a usar violência. Só recentemente é que o ministro do Interior, Horst Seehofer, declarou que esta é a maior ameaça à segurança da Alemanha.

Hartleb diz que é preciso ter atenção às ameaças de morte nas redes sociais – algumas das dirigidas a Lübcke estão ainda visíveis, nota. Este tipo de acções já estava a aumentar, mas a pandemia trouxe um novo ímpeto, diz o especialista. “Agora vemos políticos a receber ameaças de morte por causa das medidas de prevenção do coronavírus”, sublinhou. “O debate sobre como continuamos uma democracia argumentativa está longe de estar resolvido. Na verdade, está apenas a começar agora.”