Vox queria apagar uma pintura feminista. Mas “no mural não se toca”, contrariou a comunidade

Mural retrata 15 mulheres, entre elas Rosa Parks, Frida Kahlo, Angela Davis e Chimamanda Ngozi Adichie. Vox queria substituí-lo por homenagem a atletas paralímpicos, mas a comunidade acabou por ganhar. “Há várias paredes para pintar, sem ter que se apagar as mulheres.”

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“No mural não se toca": o grito de revolta foi dado pelos vizinhos do bairro da Concepción, em Madrid, depois de o Vox ter proposto apagar e substituir uma pintura feita pela comunidade num polidesportivo. O mural de 60 metros retrata 15 mulheres conhecidas pela luta pela igualdade, como Rosa Parks, Frida Kahlo, Angela Davis e Chimamanda Ngozi Adichie. Junto delas, a frase "as capacidades não dependem do género”. E, spoiler alert, ninguém lhe tocou. Mas foi preciso dar luta.

O que para a comunidade é um aplauso à luta pela igualdade e uma homenagem ao feminismo, para o partido de extrema-direita espanhol é “uma mensagem política” que não deve estar num polidesportivo municipal. Por isso, o Vox apresentou uma moção à junta de distrito para eliminar o mural e substituí-lo por um tributo aos atletas paralímpicos, que foi aprovada com o apoio do Partido Popular e Cidadãos.

Ainda a proposta não tinha surtido efeitos, já a parede tinha sido vandalizada: a palavra “género” foi substituída por “sexo”. Para Jorge Nuño, do colectivo Unlogic, que organizou a pintura, a proposta era “difícil de compreender”. “A meio de uma pandemia e depois de um nevão terrível, os grupos municipais estão a debater um mural que tem três anos, num polidesportivo que, antes, era todo cinzento”, lamentou ao elDiario.es

Mas os habitantes do bairro não se conformaram. Começaram a preparar-se para a mobilização em defesa do mural, enquanto o sucedido começava a ganhar visibilidade. O socialista Pedro Sánchez, presidente do Governo de Espanha, escreveu no Twitter: “Os vossos actos não respondem a razões, tampouco têm efeito. A luta feminista para alcançar a igualdade é uma marca inapagável na nossa história.” Irene Montero, ministra da Igualdade, também denunciou a iniciativa de apagar o mural. 

O alcaide de Madrid, José Luis Martínez-Almeida do Partido Popular, saiu em defesa da proposta do Vox, dizendo que era “uma aposta muito razoável” porque, justificou, “o mais lógico é que, não sendo o feminismo patente de ninguém, numa escola desportiva haja um mural com cinco mulheres e cinco homens que tenham competido nos jogos paralímpicos”. “Representa o feminismo e o desejo de superação melhor que o mural anterior”, referiu, citado no mesmo texto. 

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Mas, tanto a comunidade como políticos de partidos do Más Madrid e o PSOE, que se opuseram à proposta, não discordavam do mural de homenagem aos atletas paralímpicos. A questão era outra, como apontou a socialista Enma López: “Há várias paredes para pintar, sem ter que se apagar as mulheres.”

No domingo, 24 de Janeiro, dezenas de habitantes do bairro concentraram-se junto da pintura. Por esta altura, já havia um efeito bumerangue a acontecer: os criadores do mural asseguraram que vários colégios estavam a entrar em contacto com eles para replicar o desenho noutras paredes. Enquanto isso, o alcaide de Madrid perguntava a Pedro Sánchez por que razão não falava de outros murais que “exaltavam os terroristas no País Basco”, referindo-se à ETA. E sublinhou que era tão “democrático” pintar o muro como eliminá-lo.

Cerca de 50 associações de moradores mobilizaram-se para se manifestarem contra a decisão com o lema #elmuralnosetoca. Além de se “sentirem identificados” com a obra, foram os habitantes que o idealizaram e pintaram, em comunidade. Lançaram ainda uma petição que conseguiu mais de 55 mil assinaturas.

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Foi quando a notícia chegou ao Guardian, esta segunda-feira, que a polémica se adensou. Em simultâneo, soube-se que o município decidira fazer uma uma reestruturação interna que implicava o desaparecimento do departamento de igualdade, passando a ser integrado no departamento das políticas contra a violência de género. A decisão, que pressupôs uma diminuição de pessoal que passou para os serviços sociais, estava tomada antes do voto pela eliminação do mural, garantiram os dois departamentos ao elDiario.es, desvinculando-se de qualquer exigência do Vox.

Na terça-feira, o Más Madrid apresentou uma moção que pedia a manutenção do mural. Graças ao apoio do Partido Socialista e do Cidadãos, que mudou de posição, a proposta foi bem-sucedida. Begonã Villacís, do Cidadãos e a número dois do governo municipal, referiu não ser fã da pintura, mas aceitou respeitá-la. “A nossa política é fazer coisas, não apagá-las. Quero uma cidade diversa”, referiu. O Vox acusou o partido de centro-direita de “falta de lealdade”.

A reviravolta “deliciou” Jorge Nuño. “Penso que algumas pessoas tiveram dificuldades em entender que as mulheres pintadas no mural não estavam lá por razões políticas”, disse ao Guardian. “Estavam lá pelo seu contributo social para a igualdade e justiça.”

Ainda assim, e apesar de querer que este mural permaneça intacto por muitos anos, espera ver um novo para comemorar os atletas paralímpicos e os seus feitos. E “continuar a abrir mentes e corações” com a arte.