O corpo nu também conta histórias sobre medo e desejo na pandemia

Fidelia Avanzato, Paolo Gorgoni e Gaia Giuliani, italianos a residir em Portugal, sentiram de perto a crise pandémica em ambos os países. Em Maio, juntaram-se para criar um projecto fotográfico sobre o impacto da covid-19 nos corpos e nos afectos.

Fidelia Avanzato
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Fidelia Avanzato

Fidelia Avanzato, sob o nome artístico Ida Fiele, fotografou o corpo nu de Paolo Gorgoni, envolto em película aderente, para exprimir a sensação de controlo e separação dos que ficam confinados longe das suas famílias. “O corpo revela as emoções e sensações que a fotografia pode capturar. Não é só um mostrar do corpo, é uma narração”, explica Fidelia. Nu, para ser “livre de barreiras”, para que a pessoa se torne “desarmada”. Daí, nasceu Pandémico.

Na primeira fotografia, o sujeito aparece sozinho, confinado em casa. Depois, como se sonhasse acordado, imagina a proximidade, o toque. “Imagina o contacto, mas com o medo do contacto, com o temor de ficar infectado. O desejo de abraçar o outro, mas com uma barreira plástica. É ausência e presença ao mesmo tempo”, conclui.

No final do sonho, Paolo, o modelo, volta a estar sozinho. Paolo, entrevistado pelo P3 em 2017, é activista pelos direitos das pessoas com VIH e SIDA. Pandémico é, também, “com certeza”, um projecto relacionado com o VIH. “O plástico que protege do VIH é, nas fotografias, o que protege um corpo do outro. Nesse sentido, regressa o mesmo estigma.” Também o próximo projecto de Fidelia será sobre mostrar o corpo seropositivo de forma diferente, “com uma imagem positiva, e não só seropositiva”.

Fidelia foi gerente, durante uma década, de uma empresa italiana, numa rotina em que não cabia o tempo para fotografar. “Há alguns anos, passei por um momento muito difícil psicologicamente, em que experimentei ficar em contacto com o meu corpo, para descobrir as minhas emoções. Observando o que conseguia exprimir, comecei a tentar fazê-lo com outras pessoas, através da fotografia, e o que aconteceu foi incrível”, relembra.

Há três anos, fez uma mudança radical de vida e mudou-se para Portugal. “Comecei do zero e pude dar atenção à câmara.” Não diz ser fotógrafa, mas observadora. Deixa que a pessoa seja livre para se mover, e dispara. “É um trabalho de grande intimidade. O corpo é um diário e é como se pudesse ler esse diário secreto.”

Gaia Giuliani, investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, escreveu o artigo Pandémico: um estudo a seis mãos, que aprofunda o conceito do projecto.

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