Emergência médica versus negligência política?

Os nossos decisores políticos não são médicos, mas também não têm de ser para reconhecer e intervir hoje, evitando as mortes por negligência, numa emergência que já há muito foi reconhecida internacionalmente.

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Rui Gaudencio

Numa emergência médica tratamos de uma situação ou problema que põe em causa a sobrevivência do indivíduo a curto prazo, uma incapacidade permanente grave e que necessita de ser abordada num intervalo curto de tempo, geralmente em poucos minutos. Em Portugal, contam-se os minutos quando chamamos por uma equipa de emergência médica. E, quando ligamos para o 112, caso haja atraso na resposta pré-hospitalar, tal situação pode acarretar um conjunto de queixas, reclamações e até processos judiciais contra a equipa de emergência pré-hospitalar. 

Os conceitos não foram ensinados aos políticos portugueses, eles não passaram por um centro de simulação, e ainda estão ao nível dos primeiros socorros. Numa emergência, a equipa que intervém na ajuda é treinada, coordenada, especializada e obrigada a tomar decisões imediatas, ou não fosse isso custar a vida do outro. 

É, os erros ainda não foram aprendidos face à pandemia de covid-19 desde 2020.

Os nossos decisores políticos não são médicos, mas também não têm de ser para reconhecer e intervir hoje, evitando as mortes por negligência, numa emergência que já há muito foi reconhecida internacionalmente.

Mas, em Portugal, uma emergência em saúde pública, onde não morre uma ou algumas pessoas, mas centenas delas, pode esperar pela “próxima quinta-feira” num Conselho de Ministros. A ver vamos se esta equipa de emergência política, na próxima semana, chegará a tempo de salvar as vidas que estão em falência e as próximas que já se estão a agravar. 

O conjunto de medidas levadas a cabo pela Direcção-Geral de Saúde e pelo Governo desde o início da pandemia tem colocado à vista várias fragilidades do sistema de saúde português. E tem resultado numa grande carga no sistema de saúde e na economia.

O que vivemos com o fecho das escolas era inevitável, tanto quanto sabido, e já não era preciso ser especialista para intervir. Era óbvio. O país está numa emergência, e esta não está nada controlada. Quanto mais contactos entre pessoas houver, maior é o risco de transmissão. Já é básico, é como reconhecer que uma pessoa não está nada bem e precisa de ajuda imediata. E quanto mais tempo demorar a intervir, mais pessoas irão ser infectadas e morrerão. 

Até quando as decisões políticas em Portugal numa emergência em saúde pública terão de aguardar pela “próxima quinta-feira”?