A extrema direita ganhou terreno? E agora?

Não podemos dizer que a esquerda não falhou. Claro que falhou. Mas mais importante do que encontrar culpados é reconstruir essa esperança enquanto é tempo.

Depois das eleições presidenciais uma parte de nós terá acordado numa espécie de dormência, como se estivéssemos dentro da distopia de Margaret Atwood, a escritora canadiana cuja obra Handmaid's Tale foi adaptada para a popular série americana. Foi como assistir, em direto, à ascensão, mais rápida do que gostaríamos, de um líder extremista que encontra nas mulheres, mas também nos pobres e nos estigmatizados e discriminados por um racismo estrutural que se encarrega de disseminar, alvos privilegiados. Talvez a combinação da ausência de um candidato de esquerda apoiado pelo PS, a par do apoio a um candidato oriundo de uma direita moderada e pluralista, tenha deixado um vazio, sobretudo numa direita bafienta que não recuperou de um 25 de abril que nunca desejou. Esse vazio foi preenchido por um candidato populista que capitalizou descontentamento enquanto exibia como inimigo um dos principais legados do processo revolucionário e constituinte: a Constituição da República Portuguesa. O facto de existir uma candidata do PS que não era a candidata do PS e para a qual foi dirigido o voto útil também pode revelar que esta ideia de uma completa reconfiguração dos votos à esquerda talvez seja uma falácia. Na verdade, não parecem ter existido alterações tão significativas quanto possa parecer à primeira vista. Ainda assim, é preocupante verificar o resultado obtido pelo candidato de extrema direita em distritos tradicionalmente de esquerda.

Certo é que já vimos este filme em outros países da Europa e não gostamos do argumento.

Depois de uma legislatura que inverteu a trajetória de cortes, que recuperou rendimentos, aumentou prestações sociais e pensões, descongelou carreiras, criou uma prestação social para a inclusão, definiu um estatuto do cuidador informal, regularizou vínculos de trabalhadores precários na administração pública através de um processo histórico, o Processo de Regularização de Vínculos Precários na Administração Pública (Prevpap), e que iniciou uma recuperação económica assente na diminuição do desemprego e no aumento do poder de compra, foi-se caminhando mais lentamente na direção certa. O Governo começou por resistir a reverter alterações da troika na legislação laboral, agudizou a precariedade com normas de duvidosa constitucionalidade como a do alargamento do período experimental, continuou a falhar no investimento público e a não ser consequente nas medidas com vista à garantia de um sistema nacional de saúde à imagem da Lei de Bases de Arnaut e Semedo: público e gratuito. A “geringonça" foi perdendo a sua força vital, a de conseguir uma aliança à esquerda que fizesse cumprir direitos fundamentais e recuperasse o Estado Social arrasado nos anos anteriores.

Hoje, os atrasos e as insuficiências dos apoios sociais continuam a manchar a resposta à pandemia. Por outro lado, não concretizar medidas estruturais a contar com fundos de Bruxelas para respostas transitórias é não só um erro como um desperdício de uma oportunidade. A pandemia agravou feridas já abertas e profundas, sistémicas, e isto não vai lá com pensos rápidos. E não, não se pode afrouxar o espaço dos entendimentos à esquerda, não se pode negar a esperança de uma alternativa democrática, tolerante, solidária e inclusiva quando a extrema direita ganha força e uma pandemia alastra deixando tantas pessoas desprotegidas. Não podemos dizer que a esquerda não falhou. Claro que falhou. Mas mais importante do que encontrar culpados é reconstruir essa esperança enquanto é tempo.

Recentemente, PS, BE e PCP apresentaram uma iniciativa conjunta de alteração ao regime jurídico da transmissão de estabelecimento com o objetivo de garantir que sempre que existam concursos e haja adjudicação de serviços de vigilância se mantêm todos os postos de trabalho e todos os direitos adquiridos. É destas respostas, consequentes, às pessoas que se faz a democracia. E, sim, quando há vontade política há condições para mudanças. Este é só um exemplo tímido do caminho possível.

É preciso coragem política para fazer escolhas claras. Ninguém está condenado à exploração laboral, à discriminação, à solidão, ao abandono e à exclusão social. Não há pessoas de bem e de mal. Há pessoas com direitos. Nunca foi tão claro como agora o caminho que devemos recusar, nem como foram falhadas as políticas da troika nos seus propósitos. Nunca foi tão claro como agora o caminho a seguir. Esse caminho só se faz com um esforço traduzido em políticas concretas que garantam que ninguém fica para trás. Há que reivindicar futuro. E já dizia a canção dos Rádio Macau que “amanhã é sempre longe demais”…

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico