Como era Lisboa antigamente? Este arquivo mostra as diferenças

Memórias de Lisboa é o site onde Francisco Seixas coloca fotos antigas em confronto com actuais. Capta locais exactamente do mesmo ponto de vista, para que se vejam as diferenças. A cidade era “mais organizada” e agora os carros estragam a paisagem; mas também há “edifícios muito mais bonitos”.

Foto

Por vezes, posicionar-se “20 ou 30 centímetros mais para um lado, para a frente ou para trás”, é o suficiente para Francisco Seixas ter de repetir uma saída às ruas de Lisboa de câmara na mão. Engenheiro electrónico de profissão, fotógrafo por lazer, o lisboeta de 33 anos dedica-se a coleccionar memórias da cidade onde nasceu. Por memórias entenda-se captar fotografias de “sítios que as pessoas conhecem” e ver como eram “há 80, 90 ou 100 anos”.

Uma ideia que nasceu “quase há uma década”, por volta de 2012: “Sempre gostei de fotografias antigas. Não meramente de fotografias antigas de sítios aleatórios, mas de sítios que as pessoas conhecem e onde é possível perceber que elementos já existiam”, enquadra o fotógrafo. Ou vice-versa: elementos de que ninguém “se lembra ou fazia ideia” de que chegaram a existir, como acontece com muitos “palacetes ou edifícios” que antes preenchiam a paisagem.

Casa dos Bicos
Alameda Dom Afonso Henriques

O projecto foi ganhando forma e acontecendo “de forma intermitente” — as primeiras imagens datam de 2013, as últimas de 2019 — e, recentemente, Francisco sentiu que era hora de as publicar. Nasceu assim Memórias de Lisboa, um site que agrega fotografias da Lisboa antiga e de agora, captadas exactamente do mesmo ponto de vista, que permite desvendar aos poucos cada uma das fotos, permitindo que a comparação entre os dois cenários seja imediata.

Miradouro de Santa Luzia

O Arquivo Municipal de Lisboa e a Fundação Calouste Gulbenkian são as principais fontes para encontrar fotos antigas. Mas também foi tropeçando nelas em grupos do Facebook ou fóruns de discussão. E, depois de encontrar uma imagem com potencial, segue-se a ida ao local e um estudo meticuloso do mesmo: “Dá bastante trabalho. Sempre que vou, tento tirar à volta de 40 ou 50 fotografias — todas ligeiramente diferentes — e em casa escolho a mais correcta”, conta. “Já aconteceu nenhuma delas ser tirada do ponto de vista correcto e ter de voltar ao local para tirar novamente”, continua.

Fonte Luminosa
Cine-Teatro Império

É que “não é muito fácil”, estando no sítio, perceber “qual o ponto exacto” de onde a fotografia antiga foi tirada. Os tais 20 ou 30 centímetros fazem “uma diferença enorme no resultado final”. O ideal é aquele que vemos nestas imagens, em que as linhas coincidem e a imagem a preto e branco se transforma num cenário de cor, muitas vezes (ou quase sempre) com mais elementos à volta.

Memórias de Lisboa permitiu-lhe descobrir “edifícios que desapareceram” — como “alguns palacetes na Avenida da República que eram únicos e foram deitados abaixo para construir edifícios completamente genéricos que não têm qualquer interesse arquitectónico” —, mas também “edifícios que hoje são muito mais bonitos do que eram antigamente”. Um facto “bastante curioso”: a Casa dos Bicos, originalmente, tinha apenas dois andares.

Restaurante Panorâmico
Palácio Foz e Elevador da Glória

No arquivo conta com locais como o Largo do Rato, o Cineteatro Império, a Estação do Rossio ou o Terreiro do Paço. Ao todo, já são 25 pares de fotografias do antes e depois de Lisboa.

O que salta à vista do fotógrafo é que “a cidade era mais organizada, menos confusa”. E a culpa é da “quantidade de carros que hoje em dia lá circulam”. “Em algumas fotos, o facto de existirem carros estacionados altera completamente a paisagem do local.” Lisboa torna-se “mais cheia, mais desagradável”, lamenta.

Avenida da República, 87
Largo das Portas do Sol

O projecto não está terminado, nem tem data para estar. A vontade de Francisco é continuar, “com alguma frequência”, a acrescentar fotos. “Até achar que faz sentido.” Afinal, há sempre segredos por descobrir. E memórias a preservar.

Estação do Rossio