Estamos longe e, desta vez, custa mais

No primeiro confinamento sentíamos alguma adrenalina por estar a viver uma coisa completamente nova. Apesar do medo, havia uma sensação de estarmos todos juntos — a humanidade inteira — num movimento comum.

Foto
"Como não entrar em espiral de ansiedade, quando é preciso por comida na mesa?" @designer.sandraf

Querida Mãe,

Já temos tantas saudades! Na verdade, há quase um ano que não estamos todos juntos 100% à vontade, mas nos últimos meses tínhamos criado uma bolha e, com alguns cuidados, continuávamos a ver-nos. Agora estamos longe de novo e, desta vez, está a custar ainda mais...

Faz-me lembrar quando as crianças ficam muito bem uma noite longe de casa e voltam excitadas e entusiasmadas, mas apesar do aparente sucesso, não querem repetir a experiência. Porque tanto elas, como nós, no primeiro confinamento sentíamos alguma adrenalina por estar a viver uma coisa completamente nova. Apesar do medo, havia uma sensação de estarmos todos juntos — a humanidade inteira — num movimento comum. Lembra-se o quão orgulhosos estávamos de termos sido nós, o povo, a pressionar o Governo para fechar as escolas?

Agora pediram-nos o mesmo, mas as reacções foram muito diferentes: enquanto um grupo recolhia a casa e indignava-se com os que desafiavam as regras, um outro resistia desesperadamente. E as razões da resistência são muitas, desde aqueles que sabem que o seu negócio não sobrevive a mais esta prova, até aos para quem foi emocionalmente tão duro ficar “preso” em casa, e sentem a sua saúde mental ameaçada. Junta-se a isto as eleições, as tontices, os erros verdadeiros do Governo e resulta numa sociedade mais dividida do que nunca (ou, se calhar, são só as redes sociais que dão essa impressão).

Se quer saber, mãe, acho que a maioria de nós já nem sabe bem o que sente. Por um lado, temos medo, um medo que se intensifica à medida que conhecemos histórias complicadas de covid, muito perto de nós, ou assistimos a imagens de pessoas intubadas e a testemunhos de quem está dentro dos hospitais. Por outro, vamo-nos dessensibilizando. O cérebro não aguenta tantas tragédias e vai procurando argumentos para se distanciar, para se defender: “Ah, mas isso era porque ele tinha outras doenças”, “Bem, mas se calhar todos os anos é assim nos hospitais, os jornalistas é que não estavam lá”, e por ai adiante, mesmo sem chegarmos às teorias da conspiração.

Além do mais não podemos dar-nos ao luxo de ficar paralisados: é preciso voltar a organizar, pela décima vez, a nossa vida, procurando uma qualquer luz ao fundo do túnel. Mas, para muitos, não há. Fecha-se a porta de casa, a do emprego, vê-se ir por água abaixo o negócio que tanto custou a construir! Como não entrar em espiral de ansiedade, quando é preciso por comida na mesa? E como é que se faz para que essa ansiedade não provoque ou agrave tensões familiares, que se calhar sempre estiveram em alta, mas agora estão ao rubro?

A sério, Mummy, a última coisa de que precisamos neste momento é de comentários tipo Pollyana. Do estilo “Ainda bem que estás preocupado, ansioso e com medo, porque é sinal de que estás vivo!” ou, como tenho visto no Instagram, “Porque é que te estás a queixar de que vai ser difícil teletrabalhar com filhos pequenos, quando tens a sorte de ter trabalho”.

Tudo o que não precisamos é que desvalorizem as nossas emoções. Todas são válidas. É urgente criar uma rede de apoio emocional, incluindo, tornar mais visível e eficiente a linha de apoio psicológico do Serviço Nacional de Saúde (número de telefone: 808 24 24 24). Precisamos de saber pedir ajuda e, caso esteja ao nosso alcance, de ajudar. Falando, mas principalmente ouvindo. Apoiando com bens alimentares, com trabalho, com dinheiro, sem achar que compete ao Estado fazer tudo.

Nunca gostei da analogia da covid com a guerra, mas se for mesmo preciso, se precisamos mesmo de um inimigo, então que nos juntemos contra esse inimigo comum que é o vírus, sem perder tanto tempo a apontar armas uns aos outros.

Uf, a birra está feita.


Querida Ana,

Ainda bem que o Birras de Mãe existe, e que o PÚBLICO acolhe as nossas birras há quase um ano, porque estas trocas de cartas fazem-me tão bem à alma. Mais ainda neste segundo confinamento que, como dizes, é mais duro do que o primeiro, sobretudo porque o número dos internamentos e óbitos não são comparáveis. São milhares as famílias portuguesas que estão de luto, privadas do conforto (presencial) dos amigos e dos rituais que ajudam a suportar a morte daqueles que amamos.

É claro que depois desta carta vou perder umas noites de sono a preocupar-me contigo, mas se não desabafasses comigo era muito pior — punha-me a imaginar, porque imaginar as aflições dos filhos deve resultar de um chip que nos implantam no momento da concepção. E, como sabes, a imaginação das mães é assustadoramente ilimitada, sobretudo quando está escuro e, olhando o tecto do quarto, projectamos nele todos os nossos medos.

Infelizmente o outro pré-condicionamento materno é querer solucionar os problemas dos pintainhos — será que as pobres galinhas sofrem mesmo tanto como nós? E já que deixas bem claro que aquilo de que menos precisas é de palavras de ânimo, do género “Tudo vai acabar bem”, vou seguir o teu conselho e oferecer-me apenas para escutar.

Ana, conta-me mais.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.