FMI mais pessimista em relação à retoma na zona euro

Previsões para a economia mundial até melhoraram, mas na Europa e no meio de “infecções crescentes e confinamento renovados” o FMI antecipa agora uma retoma mais lenta do que aquela que era esperada há apenas três meses.

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Reuters/CLODAGH KILCOYNE

As expectativas positivas criadas pelo lançamento das vacinas contra o novo coronavírus não chegaram, na Europa, para compensar a surpresa de uma terceira vaga mais forte da pandemia nas últimas semanas de 2020, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) viu-se forçado a rever em baixa as suas previsões de crescimento para este ano nas maiores economias europeias, um sinal negativo também para Portugal.

Nas projecções intercalares para a economia mundial divulgadas nesta terça-feira, o FMI mostra, em comparação com aquilo que tinha previsto no passado mês de Outubro, um maior pessimismo relativamente à força da retoma da economia na zona euro durante este ano.

Apesar de estimar uma contracção um pouco menor da economia em 2020 (de 7,2%, quando em Outubro a expectativa era de 7,6%), a entidade com sede em Washington projecta agora um crescimento em 2021 na zona euro que fica um ponto percentual abaixo daquele que era previsto há três meses: 4,2% em vez de 5,2%.

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Entre os quatro países da zona euro para o qual o Fundo apresenta novas previsões, a Itália é a que sofre uma revisão em baixa mais acentuada, com a estimativa de variação do PIB em 2021 a passar de 5,2% para 3%.

Para Espanha, o país com a maior quebra de actividade durante o ano passado (menos 11,1%), o FMI passou a antecipar uma retoma de 5,9%, quando em Outubro esperava um crescimento mais forte, de 7,2%.

Na Alemanha, a maior economia europeia, a retoma prevista este ano passou de 4,2% para 3,5%, e em França de 6% para 5,5%. Fora da UE, o FMI prevê ainda para outra grande economia europeia, o Reino Unido, uma recuperação do PIB de 4,5%, quando em Outubro estava à espera de um crescimento de 5,9%.

Para Portugal, o FMI não apresenta novos números. Em Outubro tinha antecipado uma contracção do PIB de 10% em 2020 e uma recuperação de 6,5% em 2021. No entanto, o desempenho no ano passado não foi tão negativo e, tendo em conta a interligação muito forte da economia portuguesa com os seus parceiros europeus (principalmente Espanha, Alemanha e França) e o facto de o país estar a ser um dos mais afectados pelo ressurgimento de casos e pelo agravamento das medidas de confinamento, não é difícil antecipar que uma revisão em baixa das projecções de crescimento em Portugal este ano possa estar também no horizonte.

Nesta segunda-feira, o ministro das Finanças português, referindo-se à totalidade da zona euro, já tinha assinalado que “a terceira vaga da pandemia está a ser bastante mais forte do que o esperado”, alertando que isso irá “afectar as perspectivas de recuperação das economias este ano em toda a Europa”.

Mais crescimento nos EUA

Este cenário de maior pessimismo em relação à retoma da Europa não é, contudo, a norma no resto do mundo. Pelo contrário, para várias outras regiões do globo, o FMI até está agora a antecipar um ritmo de crescimento mais forte do que aquele que projectava há três meses.

A maior economia do planeta, a dos EUA, deverá, depois de uma contracção de 3,4% em 2020, crescer 5,1% em 2021, antecipa o FMI, que em Outubro apostava apenas num crescimento de 3,1%. Isto faz com que a economia norte-americana regresse (e supere), já em 2021, ao nível em que se encontrava em 2019, algo que apenas deverá ser conseguido à tangente pela Europa em 2022.

Para a totalidade do globo, o FMI estima agora uma contracção do PIB em 2020 de 3,5% (em Outubro era de 4,4%) e uma retoma de 5,5% em 2021 (que há três meses era estimada em 5,2%).

No relatório publicado nesta terça-feira, o FMI explica a revisão em alta das projecções para o total da economia mundial com o impulso dado pelos apoios orçamentais lançados pelos diversos governos e com a melhoria da confiança gerada pelo surgimento das vacinas.

No entanto, numa explicação para a excepção que constitui a Europa, afirma que “estas melhorias são parcialmente anuladas pelas revisões em baixa das previsões para 2021, reflectindo a observação de um abrandamento na actividade no final de 2020, que se antecipa que continue no arranque de 2021 num cenário de infecções crescentes e confinamentos renovados”.

Como ponto positivo, beneficiando do efeito esperado das vacinas, o FMI melhorou ligeiramente as expectativas de crescimento económico na zona euro em 2022, compensando em parte o desempenho mais fraco deste ano. A previsão é agora de um crescimento de 3,6% em 2022, quando em Outubro se esperava uma variação positiva do PIB de 3,1%.