Infectados não devem ser vacinados na primeira fase. E já são mais de 600 mil

Coordenador do plano de vacinação explica que as pessoas infectadas “em princípio já ganharam imunidade através da doença” e por isso não deverão ser vacinadas agora, quando ainda há poucas doses.

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Daniel Rocha

O número aumenta de dia para dia. O último balanço, deste domingo, indica que são já mais de 630 mil os casos confirmados de infecção com o novo coronavírus. Mesmo que estas pessoas, pelas suas características, estejam na lista dos grupos prioritários para vacinação por viverem em lares ou serem profissionais de saúde na linha da frente, não devem ser vacinadas já porque estão naturalmente imunizadas e o número de doses é muito limitado nesta primeira fase da operação. A regra é esta, confirma o coordenador do plano nacional de vacinação contra a covid-19, Francisco Ramos, que acredita que estará a ser cumprida na esmagadora maioria dos casos, ainda que tenha tido conhecimento de situações, muito poucas, em que as instituições “esconderam” que algumas pessoas estavam infectadas para não atrasarem o processo de vacinação em curso.

As pessoas infectadas “em princípio já ganharam imunidade através da doença” e por isso não deverão ser vacinadas agora, ainda que possam ser “lá mais para a frente” quando Portugal tiver muitas doses das vacinas, explica Francisco Ramos. Essa regra está a ser cumprida nos lares de idosos e nos hospitais onde neste momento decorrer a primeira etapa da vacinação? “Espero que sim. Mas soube de dois ou três casos em que se escondeu que havia infectados para não se atrasar a vacinação”, diz. Aliás, a norma é que nas instituições onde existam surtos activos de covid-19 não se vacine enquanto os surtos não estiverem resolvidos.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) esclarece também, nas perguntas e respostas colocadas no seu portal, que “a grande maioria das pessoas que já tiveram covid-19 adquiriram protecção contra a doença” e que “presentemente, essa protecção aparenta durar pelo menos três ou quatro meses”, ainda que, “só com o tempo” se venha a saber “por quanto tempo mais se prolonga [a imunidade natural]”. Assim, e ainda que “a maioria dos especialistas” considere ser “seguro que quem já teve a doença tome a vacina”, enquanto o número de doses “for muito limitado, as pessoas que tiveram covid-19 no passado não serão priorizadas”, frisa a DGS.

Quem voltou a criticar a forma como a vacinação está a decorrer entre os profissionais de saúde foi bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães. “Muitos médicos do SNS [Serviço Nacional de Saúde] e do sector privado e social continuam por vacinar e sem uma explicação”, apesar de OM “já ter alertado para o impacto que isto pode ter na vida dos próprios médicos e dos doentes”, critica Miguel Guimarães, em comunicado este domingo divulgado. O bastonário afirma, a propósito, que a OM enviou uma lista de 6562 médicos que querem ser vacinados e que estão fora do SNS ou a trabalhar no SNS através de empresas prestadoras de serviços, “mas nem meia centena terão chegado a receber a vacina”.

Seis médicos morreram

O bastonário revela ainda que a OM teve já conhecimento da morte de seis médicos, mas frisa que “só a tutela tem na sua posse dados a nível nacional que permitam saber efectivamente quantos médicos morreram no combate à pandemia”. Era “muito importante que o Ministério da Saúde divulgasse com mais regularidade os números relacionados com o impacto da pandemia nos profissionais de saúde, tanto em termos de infecções como de óbitos ou doentes recuperados”, enfatiza. A DGS adiantou na sexta-feira ao PÚBLICO que, desde o início da pandemia, há registo de 2828 médicos infectados. Mas os grupos profissionais mais afectados em números absolutos são os dos assistentes operacionais – e ficaram infectados 6706, desde Março –, e o dos enfermeiros – 6189 infectados.

Francisco Ramos confirma que o grupo de trabalho que coordena pediu à OM que “ajudasse a estabelecer contacto com os médicos em prática individual” mas faz questão de notar que o que está definido no plano nacional é que deve ser dada prioridade na vacinação aos profissionais que trabalham em contextos em que o risco de contágio é maior, contextos que estão definidos no plano. De resto, nota, todos os médicos prestadores de serviço (vulgarmente designados “tarefeiros") que trabalharem nestes contextos devem ser vacinados nesta primeira fase. “O plano não fala em tipos de vínculos [laborais]. Os hospitais devem vacinar todos os que sejam do quadro ou tarefeiros que trabalhem em contextos considerados prioritários, como os que estão nos serviços de urgência ou nas áreas dedicadas à covid-19, por exemplo”.

O coordenador do plano adianta ainda que esta semana os hospitais vão receber as doses que faltam para começar a vacinar o resto dos profissionais de saúde incluídos no grupo dos prioritários e que serão, no total, “cerca de 80 mil”.