Real Madrid contra Real Madrid: a final mais “blanca” da Taça do Rei

Os “merengues” já saltaram fora da Taça em 2021, eliminados por uma equipa de terceira, mas 41 anos antes, tiveram duas equipas na final: a principal e a de reservas.

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O Castilla eliminou quatro equipas da primeira divisão antes de chegar à final da Taça do Rei DR

Já não há Real Madrid na Taça do Rei em 2021. Saltou fora da forma mais humilhante possível, eliminado por uma equipa da terceira divisão, no prolongamento e a jogar em superioridade numérica, um jogo que será apenas uma infame nota de rodapé na gloriosa história dos “merengues, mas que será uma irrepetível jornada para o seu carrasco, o Club Deportivo Alcoyano, um pequeno clube valenciano, e para José Juan, o seu heróico guarda-redes de 41 anos.

A natureza de uma prova como a Taça do Rei (e outras taças) faz com que coisas como esta aconteçam com alguma frequência, o “agigantamento” de uns e o “apequenamento” de outros, e proezas como a do Alcoyano irão continuar a acontecer.

O que é verdadeiramente irrepetível é o que aconteceu na Taça do Rei durante a época 1979-80. Não houve nada de anormal na equipa que venceu, o Real Madrid, que conquistaria o troféu pela 14.ª vez. Foi o adversário que defrontou que fez desta uma final que o futebol espanhol não voltará a ver.

Na final mais “blanca” de sempre, num Santiago Bernabéu cheio de gente, o grande Real Madrid teve pela frente a sua própria equipa de reservas, o Real Madrid Castilla, que ultrapassou largamente o seu propósito de ser apenas um campo de testes para a “cantera” e foi um finalista por direito próprio, não por sorte no sorteio dos seus adversários (que nunca teve).

Não é assim tão invulgar como isso as reservas de equipas de primeira divisão serem muito competitivas. A equipa B do FC Porto, por exemplo, chegou a ser campeã da II Liga em 2016, e, em Espanha, várias equipas de reservas terminaram a época em lugar de promoção à primeira divisão. Nem sempre é assim, mas são um espaço privilegiado para a afirmação de futuros craques, e os exemplos são demasiados para os enumerarmos. E essa equipa de aspirantes do Castilla Club de Fútbol em 1979-80 teve muitos que viriam a ter boas carreiras no futebol espanhol – Ricardo Gallego foi o que teve a melhor carreira de todos, um médio que viria a ser internacional espanhol por 42 vezes e a conquistar múltiplos troféus com o Real Madrid.

Não havia ninguém com mais de 23 anos naquela equipa que competia na segunda divisão do futebol espanhol e o treinador, Juanjo García Santos, também era um jovem, com apenas 34 anos. Tudo gente com vontade de fazer vida no futebol, todos com vontade de mostrar serviço na filial e subir à primeira categoria (isto claro, era nos tempos em que o Real Madrid olhava para os jogadores da sua “cantera”, algo bastante raro na actualidade). A campanha na segunda divisão foi normal, um sétimo lugar, mas a carreira na Taça do Rei obrigou a equipa a horas extraordinárias.

O Castilla era uma das 18 filiais a entrar em competição e foram abatendo as equipas de escalões secundários nas três primeiras rondas, primeiro duas da terceira divisão (Extremadura e Alcorcón, equipa que, muitos anos depois, eliminaria o Real Madrid A na Taça), depois, um adversário do mesmo escalão (Racing Santander). À quarta eliminatória, apareceu a primeira equipa da primeira divisão, o Hércules, que ganhou facilmente a primeira mão por 4-1 em Alicante, mas o segundo jogo, no Santiago Bernabéu, foi a súmula do que seria a carreira do Castilla na Taça. Empatou a eliminatória aos 89’ e ganhou-a no prolongamento.

Na ronda seguinte, o Castilla foi emparelhado com o Athletic Bilbau e, depois de um empate sem golos em Madrid, seguiu-se uma incrível vitória por 2-1 no mítico San Mamés, um jogo que terminou com os adeptos bascos a atirem as almofadas para o relvado em sinal de protesto.

Ainda no País Basco, o Castilla fez o mesmo a uma Real Sociedad que seria campeã de Espanha na temporada seguinte. A um triunfo dos bascos por 2-1 no Atocha, seguiu-se um triunfo dos jovens madrilenos por 2-0, outra vez em Chamartín. E quando se chegou às meias-finais, não se podia dizer que o Sporting Gijón não estivesse avisado. Ainda ganhou 2-0 nas Astúrias, mas perdeu 4-1 em Madrid, num jogo que, escreveu o El Mundo Deportivo, “parecia de juniores contra supercampeões mundiais”.

Do outro lado da chave, o Real Madrid só começou a jogar nos oitavos-de-final, eliminando, sucessivamente, o Logroñes, o Betis de Sevilha e o Atlético de Madrid – por duas vezes foi emparelhado no sorteio com o Castilla, mas, em ambas, o sorteio teve de ser repetido porque a filial não podia jogar com a equipa-mãe. Na final, iria jogar em casa e contra si próprio – ou, como escreveria a imprensa espanhola na altura, seria um jogo de pais contra filhos. O Bernabéu encheu para esta final “merengue”, mas por quem torciam os adeptos? Pela equipa dos crescidos, que se tinha acabado de sagrar campeã de Espanha e que iria jogar de branco? Ou pela equipa dos miúdos, que tinham quebrado todas as barreiras para estar ali e que iriam vestir de púrpura?

Ganhasse quem ganhasse, ganhava o Real Madrid, mas a verdade é que as imagens desse jogo mostram que havia muita gente a torcer pelos rapazes da filial. O jogo é que não teve muita história porque os pais não queriam ser humilhados pelos próprios filhos, perder com uma equipa que servia de tiro ao alvo nos treinos.

Ao intervalo, 2-0, golos de Juanito e Santillana, depois, Sabido e Vicente del Bosque aumentaram a vantagem para 4-0, antes de Ricardo Alvaréz fazer o 4-1 num espectacular remate de longe. Garcia Hernández fez o 5-1, Juanito fechou em 6-1 de penálti – festejou com o punho cerrado e o braço no ar contra alguns espectadores que estavam pelo Castilla e Del Bosque, desde sempre um senhor, foi lá baixar-lhe o braço.

No final, festejaram todos, mas na boca dos miúdos do Castilla ficou um sabor amargo, de terem perdido desta forma contra a equipa-mãe. Augustín, guarda-redes do Castilla nessa final, recordou ao El País que a equipa ficou inibida e rejeitou a suspeita de que lhes terão dito para perder. “Fiquei chateado por a direcção do Real ter entrado no balneário durante a palestra do treinador, a dizer que jogássemos com tranquilidade e que tudo aquilo era uma festa. O Real jogou com a faca nos dentes e nós fomos muito macios.”