O jogo do desespero

É verdade que temos muitos problemas e desafios ao nível da educação, da saúde, da justiça, da mobilidade, dos rendimentos, mas devemos continuar a lutar por uma democracia mais democrática, por um país menos desigual social e economicamente, e fazê-lo em liberdade.

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Filipa Fernandez

Vivemos tempos conturbados. Vivemos um tempo em que os efeitos da pandemia de covid-19 far-se-ão sentir gradualmente na malha social, aumentando o desemprego e a pobreza. De acordo com o Eurostat, embora se tenha verificado um aumento das desigualdades em termos de rendimentos auferidos, em Portugal, entre 2010 e 2014 (atingiu 6,23), posteriormente e até 2019 constatou-se uma diminuição dessas desigualdades. Ainda assim, Portugal (com 5,16) continua acima da média europeia (5,1) no que a este indicador diz respeito. Significa, assim, que os 20% mais ricos auferem 5,16 vezes mais do que os 20% mais pobres. Certamente que observaremos, nos próximos anos, um aumento das desigualdades quanto aos rendimentos auferidos.

O aumento do desemprego e da pobreza contribuem para a indignação e revolta de uma parte significativa da população que encontra na falta de apoio e soluções por parte dos governantes a ausência de um suporte para enfrentarem as dificuldades que uma crise económica e social implica, o que por consequência coloca em causa as instituições democráticas que deveriam ser o garante da solidariedade de um estado social. É este um terreno fértil para que populistas de vária ordem — e espectro político — surjam como “salvadores da pátria” e apelem à mobilização desta indignação e demasiadas vezes do desespero de tanta gente que já não encontra eco nos apelos sistemáticos que vai fazendo.

Este fenómeno no campo político é em tudo similar ao campo religioso. O desespero conduz, em muitos casos, os seres humanos a situações complexas e extremas. O suicídio colectivo de Jonestown que em 1978 levou mais de 900 pessoas ao suicídio incentivadas por Jim Jones, líder do culto Templo do Povo, é o caso mais surpreendente, mas são vários os casos ao longo da história. Poderemos fazer muitas e várias análises dos motivos pelos quais um homem consegue conduzir mais de 900 pessoas à morte recorrendo a fundamentos religiosos, como idênticos pressupostos podem procurar analisar como é que um homem austríaco, de cabelos castanhos e baixa estatura consegue mobilizar uma nação na perseguição e assassinato de milhões de pessoas, apelando ao nacionalismo enquanto imigrante e fomentando a eugenia (quem e como se pode melhorar as qualidades raciais do ser humano), tendo como referência a raça ariana naturalmente que falo de Adolf Hitler.

Além destas questões, emergem também os discursos divisionistas, assentes na velha máxima “dividir para reinar”, discursos estes que nunca colocam em causa os mais poderosos, aqueles que detêm o poder económico, salvaguardando naturalmente interesses estruturais. No entanto, envolvem a parte maioritária da população mais vulnerável, desesperada e insatisfeita e por isso mais disponível em manobras de diversão e de ilusão, com ataques sistemáticos a minorias religiosas, étnicas e raciais, assim como relacionadas com a orientação sexual, transformando a vida social numa espécie de lutas entre claques de futebol de holliganismo e que de alguma forma preenchem ilusoriamente a sede de justiça com um festim digno de um espectáculo no Coliseu de Roma para gáudio de quem assiste, particularmente na zona VIP com champanhe e caviar.

Todas estas manobras tão bem encetadas, teatralizadas, carregadas de imprecisões, de incoerências, de informações erróneas, encontram também no caso português eco nas baixas qualificações escolares e baixos níveis de literacia da população portuguesa, cuja dificuldade em descodificar linguagens mais densas e interpretar textos longos conduz a um facilitismo e a pouca exigência na selecção e pesquisa sobre informação disponível (que é actualmente imensa). Tudo isto, aliado à facilidade de difusão de informação através das redes sociais: criação de montagens muitas vezes com informação imprecisa e pejada de preconceitos; vídeos curtos tantas vezes com excertos descontextualizados; imagens distorcidas ou tendencialmente “invertidas”, que se sobrepõem a sites de instituições e entidades credíveis, relatórios, artigos científicos, que estão facilmente acessíveis através de qualquer motor de busca.

A título de exemplo, e no que respeita à informação sistemática acusando os imigrantes de viverem em Portugal às custas do Estado e de apoios sociais, o último relatório do Observatório das Migrações que demonstra que as contribuições dos imigrantes têm vindo a crescer anualmente, e em número francamente maior do que os apoios sociais que são atribuídos, sendo o saldo claramente maior no que respeita às contribuições, como poderá ser constatado no Relatório Estatístico Anual – Indicadores de Integração de Imigrantes de 2020 na página 207.

Concluo, alertando que em muitos casos estes populistas não avançam com mudanças estruturais ao nível das políticas redistributivas, com vista à distribuição da riqueza e consequentemente com implicação nas desigualdades sociais, ou com medidas estruturais que beneficiam interesses económicos e quem concentra a riqueza: a privatização da educação e da saúde ou o fim da contribuição progressiva para a segurança social (beneficiando quem tem rendimentos mais elevados).

É verdade que temos muitos problemas e desafios ao nível da educação, da saúde, da justiça, da mobilidade, dos rendimentos, mas devemos continuar a lutar por uma democracia mais democrática, por um país menos desigual social e economicamente, e fazê-lo em liberdade, liberdade de expressão, de associação. E também sem que nos culpemos uns aos outros, sem que permitamos que discursos ocos e bacocos criem cisões cujas divisões só contribuem como manobras de diversão.