Eleições em tempo de vírus

O medo da pandemia ficará como marca indelével destes últimos dias de campanha para as eleições presidenciais.

A falsa partida para o confinamento e a progressão dos números da pandemia conduziram inevitavelmente a um avanço das restrições que, mesmo que pareça tautológico, valerá a pena reforçar, significam um recuo nas nossas liberdades e na nossa capacidade de, como sociedade, ir equilibrando o indispensável combate à pandemia com um assomo de vida normal.

E vale a pena a tautologia porque estamos numa fase dominada pelo medo, o que cada vez deixa menos espaço para o bom senso. Num dia, reclama-se por restrições ao comércio e à circulação, mas mal isso é conseguido segue-se o coro pelo encerramento das escolas e, se houvesse mais tempo e enquadramento legal, certamente se seguiria o adiamento das eleições. É um recuo de trincheira em trincheira, como se subitamente abandonássemos tudo aquilo que estes longos meses de pandemia nos ensinaram.

Por exemplo, já aprendemos (o mundo todo) que o ensino à distância é um recurso a evitar, que causa danos à aprendizagem dificilmente recuperáveis para muitos alunos. Esquecendo-o, há quem ache que o Governo faz mal em marcar “férias” esperando que a situação melhore e que não partir já para as aulas por computador é sinónimo de falhanço, quando o verdadeiro falhanço será não conseguir regressar às aulas presenciais daqui a 15 dias.

A mesma coisa para as eleições. Se aprendemos os cuidados para ir a um local com muita gente como um hipermercado ou um teatro, não conseguiremos pô-los em prática para o momento mais nobre do nosso sistema político? Vai demorar, vai haver bichas, mas seguramente a democracia justifica esse esforço, esse risco controlado.

O medo da pandemia ficará como marca indelével destes últimos dias de campanha para as eleições presidenciais. Por um lado, castiga os políticos no activo que, como Marcelo Rebelo de Sousa, são o alvo fácil para as críticas desta nossa derrota colectiva, mesmo que algumas sejam justas, especialmente por estes últimos dias de ziguezagues. Por outro lado, a abstenção poderá favorecer os candidatos que têm eleitorado mais fiel – como poderá ser o caso de João Ferreira ou André Ventura –, prejudicando aqueles que, à partida, pareciam ter uma vitória assegurada e como tal mais dificuldades de mobilização perante a ameaça pandémica, claramente o caso do actual Presidente.

Apesar de todas as dificuldades, a campanha foi interessante e esclarecedora. A democracia conseguiu funcionar e só falta agora que os portugueses, com todo os cuidados e precauções, a honrem com a sua presença nas mesas de voto.