Quem foi que disse que um pássaro negro não pode voar?

O mundo que se conta a partir do que se diz.

“A felicidade do branco é plena/ A felicidade do preto é quase (…)/ 80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo”. Emicida, Ismália, do disco AmarElo

“Esse ano não morro”

Num disco cheio de versos para adoptar como palavras de ordem, a última frase que se ouve, no silêncio da música que parou depois de um crescendo, é emblemática: “Se o gueto acordar, o resto que se foda!” Porque toda a intenção de Emicida em AmarElo, o terceiro álbum de estúdio do rapper brasileiro é a do abanão da consciência negra brasileira com um banho de importância da sua História na construção do Brasil. Daí que o disco tenha servido de base para o documentário AmarElo – é tudo para ontem (Netflix), partindo do concerto no Theatro Municipal de São Paulo, sala onde os artistas negros não entraram durante décadas: “Essa é a nossa forma de dizer para todas as pessoas que têm uma origem que nem a nossa que esse lugar é deles”, justifica o próprio. “Quando o rapper negro brasileiro Emicida imagina a história branqueada do seu país, vê um manual ao qual falta uma sucessão de páginas importantes”, escreve esta semana Tom Philipps no Guardian sobre o documentário que estreou no final do ano passado. O que propõe Emicida é recuperar essas páginas importantes e mostrar como a cultura afro-brasileira foi, é e continuará a ser importante na construção do país. Mas, para isso, o próprio negro brasileiro tem de assumir a cor da sua pele, a negritude das suas raízes, ou, então, como se canta em Ismália (homenagem à musa inspiradora de Alphonsus de Guimaraens, um dos maiores poetas do simbolismo brasileiro) “é a desunião dos preto junto à visão sagaz/ De quem tem tudo, menos cor, onde a cor importa demais”. E o subtítulo do documentário (“é tudo para ontem”) e o sample de Belchior que serve de base à canção homónima do álbum (“ano passado eu morri/ mas esse ano não morro”) conjugam os dois eixos fundamentais da mensagem: afirmação e urgência. Isto sem cair nunca no discurso do coitadinho: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”.

Separatismo negro

Um incêndio num apartamento em Saint-Leu-la-Forêt (Val-d'Oise), a norte de Paris, levou à detenção de um homem negro de 37 anos e da sua mulher, de 29 anos. Segundo a polícia, o homem estava a produzir explosivos e a manipulação dos químicos teria dado origem ao fogo. “Uma investigação está em curso”, disse ao Le Figaro a procuradoria de Pontoise. Tanto o Figaro como o Le Parisien, jornais de direita, carregam a tinta no facto de estarmos perante membros do “separatismo negro”, elementos nitidamente perigosos que estão a ser investigados por “chefia de associação de malfeitores e fabricação não autorizada de engenhos explosivos”. No interior do apartamento, a polícia teria encontrado “vários produtos inflamáveis”. O Parisien diz que o homem tem um blogue em que apela à violência contra polícias e o Figaro refere que tem antecedentes criminais por agressão agravada e “ameaças a pessoa depositária de autoridade pública”, isto é, o investigado já ameaçou pelo menos um polícia. Mas que de um negro com raiva por séculos de opressão se salte para um tom de movimento separatista negro, a preparar na clandestinidade um qualquer atentado, só prova que a sociedade multiétnica francesa ainda está por acontecer – e muitos brancos (e os jornais que os alimentam) ainda têm problemas para aceitar. Só como contraste, nem o Libération, nem o Le Monde escreveram uma linha que fosse sobre essa ameaça de separatismo negro.

Ser livre é ser branco

Desde a criação dos Estados Unidos da América que a ideia da liberdade se associa a ser branco. O historiador Tyler Stovall demonstra essa assunção no seu livro White Freedom: The Racial History Of An Idea, publicado esta semana nos Estados Unidos. Os pais fundadores repetem na Declaração de Direitos, de 1791, várias vezes a palavra liberdade, mas são um grupo de homens brancos a escrever sobre a liberdade como direito humano à sua medida, num tempo em que a economia assenta e depende da escravatura. “A perspectiva generalizada do Iluminismo era pessimista – a de que havia pessoas que simplesmente não tinham capacidade para ter a maturidade intelectual para serem livres”, diz Stovall, em entrevista à National Public Radio. Que na conjuntura da época tenha sido essa a conclusão custa menos a crer do que, volvidos mais de dois séculos, essa seja ainda conclusão a que chega muita gente. E que haja intelectuais e académicos capazes de culpar Barack Obama pela revolução reaccionária branca que nos deu Donald Trump e a consequente fragilização das instituições democráticas norte-americanas. Stovall explica a frustração que nos deixa o travar de todos esses avanços civilizacionais conquistados no século XX: “A minha própria infância foi moldada pelo ideal verdadeiramente optimista de que o racismo haveria de desaparecer, que representaria um novo dia para os africanos-americanos. Nos meus anos mais maduros, vivi para ver, de muitas formas, o declínio dessa esperança, o facto de o racismo estar ainda vivo e de boa saúde na América como os acontecimentos destas duas semanas claramente demonstraram.”

Os pássaros também voam

O ano de 2020 disse tudo. Esgotou-se à reflexão acontecendo. Quem poderia imaginar o rocambolesco de um ano que começou como todos os outros, que veio desesperançado e daí se foi levado para as profundezas da pandemia. Amanda Gorman, como afirmava em Dezembro à revista Harper Bazaar, quando já tinha sido escolhida para poeta da tomada de posse de Joe Biden (a mais jovem de sempre, aos 22 anos, do mais velho Presidente de sempre, aos 78 anos) descobriu-se sem nada para dizer: “É que este ano já se tinha escrito a si mesmo. Vimos doença e morte, violência e desigualdade, uma crise climática e eleições polarizadas.” Mas, como sempre, é quando tudo cala que se ergue a voz do poeta e, na quarta-feira, no mesmo lado Oeste do Capitólio onde a 6 de Janeiro uma multidão de brancos empoderados por um Presidente criminoso invadiu o símbolo da primeira democracia, Amanda Gorman elevou-se para além da sua pequena estatura física para inspirar os norte-americanos a voltar a subir a montanha, a contrariar o mito de Sísifo e as suas palavras foi como se voassem: “Quando o dia chega, vem-nos a pergunta onde está a luz nesta sombra que tanto tarda em acabar?/ A perda que carregamos, o mar que temos de vadear./ Afrontámos o ventre do estafermo./ Aprendemos que calmo nem sempre é são,/ e as normas e as noções do “justo” nem sempre são rectidão./ E, contudo, a aurora é nossa antes mesmo de o sabermos.”​