Eles criaram um oásis de espécies nativas numa zona onde impera o eucalipto

Associação BioLiving tem vindo a desenvolver um projecto de restauro ecológico e conservação de espécies e habitats em Estarreja. Começou por intervir num terreno de meio hectare e, agora, já vão em 1,8 hectares.

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“Um oásis no meio do eucaliptal”. É desta forma que Rafael Marques resume o trabalho que a associação BioLiving tem vindo a desenvolver, com a ajuda de alguns voluntários, em Canelas, no município de Estarreja. Pegaram num terreno e transformaram-no num verdadeiro laboratório de conservação da biodiversidade. Numa parcela de cerca de meio hectare, plantaram 28 espécies arbóreas e arbustivas típicas da floresta portuguesa. E o melhor de tudo é que conseguiram incentivar alguns proprietários de terrenos vizinhos a transformarem as suas parcelas em micro-reservas. Neste momento, a associação criada por Milene Matos já intervém numa área de 1,8 hectares e sonha chegar a outros pontos do país.

“O objectivo passa por, no futuro, termos uma rede de micro-reservas, replicando esta experiência noutros distritos”, anuncia Rafael Marques, membro da BioLiving e coordenador do Lusitanica – o projecto foi buscar o nome à salamandra-lusitânica, uma das espécies mais emblemáticas das florestas nativas do Noroeste da Península Ibérica. Este biólogo está no projecto desde o momento zero. Quando ainda estava a tirar o curso, foi desafiado pelos avós a pegar num terreno até então usado para o cultivo de milho para começar a desenvolver trabalho prático. “Estávamos em 2016 e logo nesse ano plantámos cerca de 300 árvores e arbustos”, conta Rafael Marques.

O terreno da Fonte do Cabreiro, inserido numa paisagem dominada por explorações de produção de eucalipto e por campos agrícolas, passava, assim, a assumir-se como uma micro-reserva. “É um terreno muito especial, uma vez que é atravessado por uma ribeira temporária que disponibiliza água e humidade essenciais para que inúmeras espécies se possam ali estabelecer”, realça o biólogo. O trabalho da associação e dos voluntários tem passado por “renaturalizar” aquele terreno, “aplicando metodologias de restauro ecológico e as diferenças são surpreendentes”, acrescenta.

“Temos aqui carvalho alvarinho, sobreiros, folhado, pilriteiro, cerejeiras bravas, castanheiros, azevinhos, adernos...”, enumera Rafael Marques, enquanto conduz o PÚBLICO numa visita à galeria natural que a BioLiving criou em Canelas. “Temos aqui uma colecção de várias espécies nativas do nosso país”, enaltece, com orgulho, a propósito do espaço que está aberto a visitas e actividades com crianças, jovens e famílias.

Efeito dominó

Uma das grandes conquistas do Lusitanica passa pelo efeito de contágio que o projecto conseguiu criar junto de outros proprietários de terrenos vizinhos. Rafael Marques fala do caso de um senhor que acabou por aceder a cortar os eucaliptos que tinha junto ao terreno da Fonte do Cabreiro, entregando, depois, a gestão da sua propriedade à associação. Destaque, ainda, para um outro proprietário que depois de participar numa actividade dedicada à vaca-loura também decidiu disponibilizar a gestão do seu terreno para a BioLiving.

Aumentada a área de intervenção – que é agora de quase dois hectares -, também foi preciso intensificar o trabalho. Em 2019, foram promovidas acções de voluntariado regulares, e, no Verão de 2020, foi desenvolvido um Campo de Trabalho Internacional (co-financiado pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude). “Em plena pandemia, 25 jovens de vários países europeus dedicaram tempo das suas férias para contribuir para um mundo mais sustentável e biodiverso”, destaca o coordenador do Lusitanica.

Contas feitas, ao longo destes anos, já passaram por aquele laboratório-vivo cerca de 250 voluntários (em diferentes momentos) e as ajudas continuam a ser muito bem-vindas. Ainda que, por ora, por conta da pandemia, as acções de voluntariado estejam suspensas, fica o convite para os cidadãos interessados em recuperar o espaço natural. Uma das próximas missões passará por recuperar o moinho existente num dos terrenos da BioLiving (Moinho da Marçaneira), entre outras intervenções.

Sempre com o objectivo de “mostrar às pessoas que, com pequenas áreas, bem conservadas e bem geridas, é possível preservar espécies muito importantes e garantir o futuro da biodiversidade”, sublinha Rafael Marques.