Caminhos da imigração digital

Alguma propaganda quer fazer crer que a aquisição de conhecimentos e a sua posterior assimilação em competências digitais desabrocham como manjericos em noite de Sto. António para os quais basta “regar e pôr ao luar”, segundo reza a tradição. Não será bem assim.

A relação entre tempo, expectativas e mudança foi exemplarmente cristalizada por Luís de Camões no soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O génio soube condensar de modo exemplar a relação complexa que cada um de nós trava com os tempos da vida, as expectativas sonhadas e os desníveis existentes entre desejos imaginados e agruras do real.

A deceção provocada pelo desconcerto entre esperanças e realidades, as surpresas que o fluir do tempo consigo arrasta porque factos e desejos raramente rimam, levaram o poeta a concluir que “E afora este mudar-se cada dia / Outra mudança faz de mor espanto / Que não se muda já como soía”.

A atualidade do soneto mantém toda a sua plenitude na segunda década do século XXI: a humanidade vive uma pandemia que gera múltiplos níveis de ansiedade, desmultiplicam-se as catástrofes que as alterações climáticas provocam no planeta, e as ameaças anti-democráticas enxameiam e envenenam o relacionamento político e social. Daí advém o cortejo de doenças psicossomáticas que transtornam as relações de trabalho, pessoais e familiares. Os menos resilientes demonstram dificuldades crescentes em libertar-se deste triângulo cujos vértices, assentando sobre a pandemia, as alterações climáticas e as emergências de soluções políticas autoritárias, recordam o tristemente famoso triângulo das Bermudas.

Será então correto aceitar que o “admirável mundo novo” pouco tem para admirar? As novidades são “diferentes em tudo da esperança”: catástrofes climatéricas ocorrem um pouco por todo o planeta, as vacinas prometidas tardam em chegar, o número de internados e mortos não cessa de aumentar; o confinamento, indispensável para suster o crescimento da pandemia, provoca a falência de empresas com o consequente cortejo de desempregados e esse é um terreno fértil para ativar todo o tipo de extremismos.

É certo que a presidência do Conselho da UE armou as bazucas do seu Banco Central para disparar milhares de milhões de euros que visam mitigar a pobreza e a miséria instalada em vários pontos do continente. Sabe-se também que se vai imprimir mais dinheiro para alimentar programas como a “Transição para o Digital”. A iniciativa prevê reciclar as competências do exército de desempregados e, consequentemente, preparar empresas e trabalhadores para enfrentar os desafios da economia digital num momento em que se alarga o fosso que separa a Europa dos seus mais diretos concorrentes no mercado global: EUA, China, e demais tigres asiáticos.

Prevê-se que os caminhos da imigração digital não sejam fáceis de trilhar. Recorde-se que qualquer projeto de imigração – territorial, ou intelectual – tem subjacente a necessidade de aculturação e o tempo desta depende do nível de literacia e do grupo etário em que o “imigrante” se integra. Alguma propaganda quer fazer crer que a aquisição de conhecimentos e a sua posterior assimilação em competências digitais desabrocham como manjericos em noite de Sto. António para os quais basta “regar e pôr ao luar”, segundo reza a tradição. Poderá neste contexto existir uma ponta de verdade entre grupos de jovens letrados. Mas os caminhos da imigração digital também vão ser trilhados por trabalhadores mais velhos. Neste contexto a aquisição de conhecimentos e a sua posterior assimilação em competências digitais exigem tempos de maturação diretamente proporcionais à idade dos formandos.

Uma vez mais se recorre a Luís de Camões para recordar o magistral pensamento contido no soneto mencionado: “o tempo cobre o chão de verde manto, / que já coberto foi de neve fria / e em mim converte em choro o doce canto”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico