Portugal quer ser porta-voz dos interesses do Brasil na UE

Políticas de Jair Bolsonaro para a Amazónia aumentam reticências de Estados europeus a acordo com o Mercosul.

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Desflorestação da Amazónia compromete acordo com o Mercosul daniel rocha

O novo embaixador português no Brasil, Luís Faro Ramos, disse à Lusa em São Paulo que, durante a presidência de Portugal da União Europeia (UE), Lisboa tentará, de algum modo, actuar como porta-voz dos interesses do país sul-americano junto aos europeus.

“Para lá da parte bilateral, dá-se a circunstância de Portugal estar, a partir do dia 1 de Janeiro até o dia 30 de Junho, a exercer a presidência do Conselho da União Europeia e então, nós sabemos que há dossiês que interessam ao Brasil e à América Latina”, frisou Luís Faro Ramos.

“Vamos tentar, digamos de algum modo, ser os porta-vozes do Brasil nos interesses que o Brasil tem junto a UE. Aqui ganha um interesse muito particular o acordo da UE-Mercosul”, acrescentou. Este acordo de livre comércio entre a UE e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), integrado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, foi fechado em 2019, depois de 20 anos de negociações.

O pacto abrange um universo de 740 milhões de consumidores, que representam um quarto da riqueza mundial, mas antes de entrar em vigor precisará ser ratificado internamente pelos países membros dos dois blocos envolvidos.

Na Europa, o principal argumento contra o tratado é a mudança da política para o meio ambiente que provocou o aumento da desflorestação da Amazónia e o desmantelamento de acções de fiscalização e punição de crimes ambientais no Brasil, aplicada na gestão do Presidente Jair Bolsonaro. Países como a Áustria, Holanda e a região da Valónia, na Bélgica, já anunciaram que não vão ratificar o acordo. França, Luxemburgo e a Irlanda também se manifestaram contra o tratado de comércio.

Na última reunião da comissão parlamentar de Assuntos Europeus, representantes do BE, PCP, Verdes e a deputada não inscrita Cristina Rodrigues pediram ao Governo português que rejeite o acordo, advertindo para os seus “graves” impactos ambientais e sociais.

Questionado sobre o tratado, Luís Faro Ramos avaliou que Portugal “está pronto para aceitar o acordo na sua plenitude”, mas reconheceu que “tem havido alguns atrasos tanto do lado europeu quanto do lado do Mercosul nesta matéria”.

“Portugal, enquanto [estiver na] Presidência do Conselho da UE vai fazer tudo para avançar no acordo. É preciso, não podemos escondê-lo, colaboração tanto da parte das instituições europeias, em Bruxelas, quanto da parte dos países do Mercosul, incluindo o Brasil”, avisou.

“Na presidência [da UE] pretendemos levar este assunto a um bom porto. É, como sabem, um assunto que não é muito simples, mas penso que com boa vontade, iniciativa e espírito de colaboração de todas as partes poderemos chegar a um entendimento que seja confortável para todos”, acrescentou.