Voluntários e histórias via Zoom: em Fátima, a companhia a pessoas com deficiência faz-se online

Zoomas-me uma história? é o nome do projecto que “leva” voluntários ao Centro de Reabilitação e Integração de Fátima, onde os participantes contam histórias, cantam, declamam ou conversam com as crianças e adultos com deficiência da instituição.

Foto
Chris Montgomery/Unsplash

O Centro de Reabilitação e Integração de Fátima (CRIF), que apoia crianças e adultos com deficiência e doença mentais, lançou o projecto Zoomas-me uma história?, no qual voluntários fazem companhia virtual, para combater o isolamento social devido à pandemia.

O projecto foi lançado no Facebook do CRIF no dia 11 e passa por fazer uma chamada via Zoom na qual o voluntário partilha, por exemplo, um bocadinho da sua vida, conta uma história, uma canção, uma anedota ou um poema, ou “entra” nas salas da instituição para a conhecer.

Mais de 70 pessoas mostraram interesse em integrar a bolsa de voluntários virtuais, disse esta quarta-feira, à agência Lusa, Rita Rosa, psicomotricista há 16 anos no CRIF. “Os utentes falam muito da covid-19, estão preocupados com a doença, demonstram angústias, preocupação também com os familiares, e o projecto surgiu para dar uma nova vida e dinamismo à instituição e, no fundo, combater o isolamento social a que estão sujeitos”, declarou Rita Rosa.

Notando que “muitos deles, a única experiência social que têm é ir à instituição e os outros, que até saíam ao fim de semana, estão confinados a esta situação, isolados”, a técnica salientou que o projecto Zoomas-me uma história? permite que “conheçam pessoas novas e dá a conhecer a instituição e os utentes”.

“Trazer pessoas que nunca ouviram falar do CRIF e aproximar a comunidade à nossa instituição” é, segundo Rita Rosa, uma forma de se encurtar a distância que, “muitas vezes, é uma barreira à inclusão”. A psicomotricista do CRIF realçou que “a entrada de pessoas novas na vida dos utentes, ainda que de forma virtual, tem impacto, porque falam delas, de quem lhes entrou na sala, é mais um momento de partilha”.

“Percebemos que havia potencial ao nível da comunicação dos utentes, que preparam as perguntas à pessoa que nos vai entrar pela sala pelo Zoom, sobre o que gostavam de saber, e após as sessões partilham o que mais gostaram, numa perspectiva de desenvolvimento pessoal”, adiantou.

Rita Rosa, de 39 anos, lembrou que antes da pandemia o CRIF recebia voluntários e também visitas de escolas, além de fazer outras iniciativas. Dos mais de 70 voluntários virtuais que já manifestaram interesse em participar no projecto, há quem se tenha disponibilizado para fazer ginástica, ioga, cantar, contar histórias ou tocar instrumentos.

“São pessoas que querem dar um bocadinho do seu tempo, da sua generosidade”, realçou, referindo que “algumas estão sozinhas e também vêem nesta forma de comunicar uma mais-valia à sua saúde mental”.

Entre quem manifestou interesse estão pessoas que vivem na Alemanha, Luxemburgo ou Açores, sendo que a “maioria está em teletrabalho”. “Há professores, pessoas que estão em casa com os filhos, que estão no desemprego e outras viveram experiências na área da deficiência”, exemplificou, acrescentando que duas escolas de Fátima também contactaram o projecto, assim “como uma mãe cuja filha de 12 anos também quer ser voluntária numa sessão”.

Nas três sessões já realizadas, um dos participantes partilhou um pouco da sua vida, outro deu uma aula de zumba e houve ainda a participação do escritor Gonçalo M. Tavares. “As sessões são, no máximo, de meia hora e em cada sala estão entre dois e seis utentes do CRIF, devido às limitações impostas pela Direcção-geral da Saúde”, disse.

“O objectivo é que todos tenham a oportunidade de conhecer um voluntário virtual”, esclareceu a técnica, adiantando que já há marcações até meados de Fevereiro: “Há dias em que estão marcados três voluntários digitais, para três salas diferentes”.

O Centro de Reabilitação e Integração de Fátima é uma instituição particular de solidariedade social (IPSS). Foi criado em 1976, tem 114 utentes dos 6 aos 54 anos, distribuídos pelas valências de centro de actividades ocupacionais, formação profissional e socioeducativa. Os utentes são oriundos dos concelhos de Ourém, Batalha, Porto de Mós, Alcanena e Leiria.