No book deals for traitors: um apelo ao boicote literário da Administração Trump

Mais de 500 signatários pedem às editoras norte-americanas que se recusem a editar livros que venham a ser escritos pelos colaboradores do Presidente cessante. Aliança Contra a Censura contrapõe com defesa da liberdade de expressão.

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Donald Trump vai ser julgado num segundo processo de destituição LUSA/WHITE HOUSE / HANDOUT

Já tem mais de 500 signatários a carta aberta escrita por Barry Lyga na qual o romancista norte-americano, 49 anos, apela às editoras dos Estados Unidos para não assinarem contratos de edição com quaisquer membros da Administração Trump, argumentando que “aqueles que permitiram, promulgaram e encobriram crimes contra o povo americano não devem enriquecer através dos cofres” do negócio literário.

“Temos de ser honestos: o país está onde está porque o mercado editorial tem ido atrás do dinheiro e da notoriedade de pessoas bastante suspeitas, tendo-lhes dado tanto o imprimatur da respeitabilidade como um monte de dinheiro através de contratos de edição jeitosos”, salienta Lyga, que deu à sua carta o nome No book deals for traitors (​Nada de contratos de edição para traidores, em tradução livre). O documento já foi assinado por figuras como Celeste Ng, autora do livro Pequenos Fogos em Todo o Lado, e Kathy Sandler, sócia-gerente da editora Penguin Random House.

O romancista defende que “nenhum membro”​ de uma administração que “​gozou com a ciência enquanto milhões de pessoas ficavam infectadas com um vírus mortal deveria enriquecer à custa de um contrato de edição generoso”, aludindo ainda às chamadas “Son of Sam laws” — termo que designa a legislação diversa criada para impedir que os criminosos lucrem com a publicidade dos seus crimes — e apelidando a Administração Trump de “monstruosa”​. “Somos escritores, editores, jornalistas, agentes e profissionais em múltiplas formas de edição. Acreditamos no poder das palavras e estamos fartos de que a indústria que amamos enriqueça os monstros entre nós, pelo que vamos fazer tudo o que estiver no nosso poder para o impedir”, frisa.

Em Novembro, o tablóide New York Post reportou que Donald Trump estaria a ser “bombardeado com contratos televisivos e de edição” com valores na ordem dos 100 milhões de dólares. Apesar disso, o seu filho, Donald Trump Jr., auto-editou o seu mais recente livro, Liberal Privilege.

A carta aberta surgiu na mesma semana em que Josh Hawley, senador do Missouri, foi obrigado a encontrar uma nova editora para a publicação do seu livro, The Tyranny of Big Tech. A Simon & Schuster cancelou o seu contrato com o republicano, que tem alegado insistentemente que as eleições presidenciais nos Estados Unidos foram uma fraude, depois de saber do seu envolvimento nos motins que marcaram a invasão ao CapitólioO livro será agora publicado pela editora conservadora Regnery, cujos títulos são distribuídos, em todos os mercados mundiais, pela mesma Simon & Schuster.

A National Coalition Against Censorship [Aliança Nacional Contra a Censura] já veio entretanto criticar a suspensão do contrato com Hawley. “O cancelamento da edição do livro enfraquece a liberdade de expressão… É crucial que as editoras mantenham a sua decisão de editar as obras, mesmo que discordem profundamente de algo que o seu autor tenha dito ou feito”, defende a organização, citada pelo jornal britânico The Guardian. “Cancelar um livro encoraja aqueles que querem silenciar os seus críticos, colocando ainda mais pressão sobre as editoras, o que levará a mais cancelamentos. A melhor defesa da democracia é um compromisso forte com a liberdade de expressão”, conclui a estrutura, que ressalva porém o seu “ultraje” perante o que aconteceu no dia da invasão ao Capitólio.

“Para aqueles que acreditam que isto é censura, só tenho a dizer o seguinte: se a primeira emenda garante contratos de edição, então há algumas editoras que rejeitaram livros meus no passado que agora estão a dever-me dinheiro”, escreveu Lyga na rede social Twitter.