Fecho das escolas: uma derrota para o país

O mais que provável recuo do Governo no fecho das escolas é bem mais do que uma derrota política. É uma derrota do país e principalmente dos portugueses mais jovens.

Está escrito nas estrelas: para a semana, amanhã, depois de amanhã ou daqui a 15 dias (para usar a expectativa do primeiro-ministro esta terça-feira na Assembleia) o Governo acabará por fechar as escolas. Numa acção aparentemente articulada, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa foram preparando o terreno. O primeiro foi dizendo que em causa está “um fenómeno de percepção” da opinião pública; o primeiro-ministro fazendo depender o fecho das escolas da presença da estirpe inglesa do vírus. O sacrifício das aprendizagens e da sociabilização dos mais jovens fica assim dependente de uma variante mais perigosa do vírus e de uma “percepção” errada dos cidadãos sobre os perigos que ameaçam o país.

Sabemos que se há bons argumentos para defender quer a tese do Presidente, quer a do primeiro-ministro, também sabemos que o que está em causa são verdades convenientes. O Presidente dedica-se a controlar danos. E o Governo, que falhou repetidamente o alvo da pandemia nas últimas semanas, tenta controlar a situação que lhe escapou. O fecho das escolas pode ser feito com novos argumentos: as confederações de professores mudaram de opinião; os contágios estão a aumentar rapidamente na população entre os 13 e os 17 anos e a incidência no grupo dos 18 aos 24 ronda os 1550 casos por 100 mil habitantes; e, como o prova a sondagem PÚBLICO-RTP que hoje publicámos, a maioria dos portugueses é favorável a um confinamento duro.

Ninguém tem dúvidas de que o fecho das escolas tem um custo terrível para os jovens, principalmente os das classes mais desfavorecidas. Foi esse preço que motivou o Governo a recusar os argumentos de uma parte da comunidade científica. Foi esse preço que nos levou a considerar neste espaço o fecho das escolas como um “mal maior”, que deveria ser evitado a todo o custo. Mas importa reconhecer a realidade e admitir que no curto período de uma semana apareceram razões para o Governo (ou o autor deste texto) mudar de opinião. A vontade dos professores tem de ser considerada. O índice de contágios nos jovens também. E a “percepção” dos portugueses que determinou um confinamentozinho com poucas regras e muitas excepções também.

Resta uma expectativa – que, antes de tomar uma decisão com tantos custos para o futuro, o Governo equacione todas as alternativas, poupando os alunos até aos 12 anos, por exemplo; anunciando de imediato medidas de mitigação dos impactes na aprendizagem. Ou uma revisão do calendário escolar, na medida do possível. Haja consciência: o mais que provável recuo do Governo é bem mais do que uma derrota política. É uma derrota do país e principalmente dos portugueses mais jovens.