Algarve tem vagas para mais 70 doentes no hospital de campanha em Portimão

Com mais de 20 alunos infectados, o director do agrupamento de escolas João de Deus em Faro, pergunta: “Devo continuar com aulas presenciais?”. Em Portimão há mais dez quartos improvisados para crianças com covid-19.

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O hospital de campanha instalado no pavilhão Arena em Portimão foi montado pela proteção civil em instalações da câmara de Portimão. Tem capacidade para 100 camas LUSA/LUÍS FORRA

O pavilhão Arena de Portimão, transformado em hospital de campanha, recebeu este domingo à tarde mais quatro doentes covid-19 de Setúbal. O número de pacientes já vai em 30 e não tardará a chegar à centena – a capacidade máxima desta estrutura. “O único hospital de campanha que foi previsto foi este, porque não podemos estender para uma fase em que não formos capazes de dar resposta”, adverte a presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), Ana Castro, ela própria médica a trabalhar no hospital de campanha. Multiplicar camas pelos ginásios ou pavilhões não seria difícil, “os profissionais é que não existem no mercado”, sublinha.

No Hospital do Barlavento (Portimão) — unidade que integra o CHUA — foi ontem montado um contentor com dez quartos para crianças covid-19 no exterior do Serviço de Urgência. No espaço ao lado, já lá estavam instalados mais dez quartos para adultos. Assim, vão-se recriando e multiplicando espaços à medida das necessidades. Até onde chega a elasticidade do sistema? “Não há milagres, se as pessoas não fazem a parte delas — vem um confinamento e anda toda a gente aí na rua, enquanto for assim os números não hão-de descer”. Nos últimos seis meses, adianta a gestora, foram libertadas mais de uma centena de camas nos hospitais de Faro e Portimão, que estavam ocupadas com casos sociais.

A pouco mais de duas centenas de metros do Serviço de Urgência de Portimão, sentado no lancil do parque de estacionamento, Joaquim Pacheco está pensativo: “Estou aqui a fumar um cigarrinho e apanhar um pouco de sol”. O homem, de 79 anos, dá mais uma fumaça e faz uma pausa: “Vim acompanhar a minha mulher — há mais de um ano que estava à espera de ser chamada para lhe tirarem um pedaço de uma agulha que se espetou no papinho do dedo mindinho”, explica. A coisa, relata, parecia insignificante, mas causava dores insuportáveis. “Não queira saber o que a mulher sofria!...”. Põe a máscara, caminha em direcção à sala de atendimento das consultas. “Tem meia dúzia de pessoas à frente, não deve demorar – está menos gente do que esperava”, comenta. Regressa ao estacionamento, completamento cheio. “Há muita gente que deixa aqui o carro [parque gratuito] e vão depois no vai-vém (transporte público) para a cidade”. Está explicada a razão por que há mais viaturas que utentes funcionários do hospital.

A entrada e saída de doentes no hospital, ao princípio da manhã, processa-se de forma regular, sem ajuntamentos. “Está tudo marcado, e foi mais rápido do que esperava”, conta, por seu turno, José Estevens: “Tirei senha, passados três minutos estavam a chamar, e ainda não passou meia hora já cá vou de volta”. O idoso padece de uma alergia e isso obriga-o a deslocar-se ao hospital de cinco em cinco semanas para fazer análises. “Acho que as pessoas estão com medo de vir ao hospital — ouve-se falar de muitas mortes”. No que lhe diz respeito, está obrigado a cumprir o ritual “Se não levar as injecções não aguento a comichão”, justifica. Senhorina Nunes é outra paciente que não pode dispensar as deslocações ao hospital. Sofre de hemocromatose (excesso de ferro no organismo). Desde que entrou na menopausa, conta, “tenho esta doença, que tem de ser controlada”. Até há cerca de um ano recorria aos cuidados do serviço privado, “mas aquilo era sempre a taxar”. Sobre a demora, diz, “hoje até demorei menos tempo do que é habitual”.

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Luís Forra/Lusa

Ansiedade nas escolas de Faro

Desde há uma semana, quando abriu o hospital de campanha em Portimão, Ana Castro saltou para a linha da frente e voltou a vestir a bata. “Estamos a dar um jeito”, refere a administradora, salientando que “todos os profissionais vestiram a camisola”. O Algarve ainda não está a pisar a linha vermelha da resposta do Serviço Nacional de Saúde, mas há sinais preocupantes com o número infectados, sem controlo. “Tenho seis casos positivos recentes em duas turmas e mais sete a aguardar resultados”, denuncia o director do agrupamento de escolas João de Deus, em Faro, Carlos Luís, criticando a falta de resposta da autoridade local de saúde.

“Há mais de um mês que estou a tentar falar com o delegado de saúde, deixei várias mensagens no telemóvel e não obtive resposta”, diz o docente, referindo que nas 80 turmas do agrupamento já contabiliza mais de duas dezenas de casos covid-19, incluindo quatro ou cinco funcionários. Só depois das queixas directas de uma encarregada de educação , no domingo, recorda, é que houve retorno dos telefonemas: “O delegado de saúde pediu-me que o informasse sobre a situação [da escola] e quais as medidas que já tomei”. Carlos Luís comenta: “Em vez de dar ordens, porque essa é a competência da autoridade de saúde, pergunta o que é que eu fiz”. Perante a ansiedade dos pais e alunos, questiona: “Devem continuar as aulas presenciais?”.

O secretário de Estado da Descentralização e Administração Local, Jorge Botelho (coordenador das medidas de combate à pandemia na região), questionado pelo PÚBLICO, desculpabiliza a autoridade de saúde pública: “O delegado regional de saúde informou-me que não responde aos telefonemas, porque são muitos, mas não deixa um email sem resposta”.

No Lar Ribeira da Tôr (Loulé), mais uma falha de comunicação ou descoordenação. Os familiares dos utentes positivos – já são  27 — foram informados pelo Centro de Saúde no domingo de manhã dos testes efectuados dois dias antes. A meio da tarde, apurou o PÚBLICO, a direcção do lar ainda não tinha recebido qualquer informação sobre o número de infecções, em utentes e funcionários. O primeiro caso do surto na instituição com mais de 70 doentes surgiu há oito dias e ainda não é conhecido o resultado de todos os testes, efectuados na sexta e sábado da passada semana. Jorge Botelho justifica as falhas com a “intensidade do trabalho e a falta de pessoas” nos serviços da DGS.