Morreu Jean-Pierre Bacri, cúmplice de Agnès Jaoui e Alain Resnais

O actor, dramaturgo e argumentista escreveu e interpretou filmes como É Sempre a Mesma Cantiga ou O Gosto dos Outros

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claudio peri/epa

O actor, dramaturgo e argumentista francês Jean-Pierre Bacri morreu esta segunda-feira, de cancro, aos 69 anos. A notícia foi confirmada pela agente do actor à agência France-Presse. O nome de Bacri foi durante muito tempo indissociável de Agnès Jaoui, sua companheira durante 25 anos, com quem escreveu para Alain Resnais Fumar/Não Fumar (1993), adaptando uma peça de Alan Ayckbourn, e É Sempre a Mesma Cantiga (1997), um guião original (musical) onde também participavam como actores. 

Antes de Resnais, Jaoui e Bacri – ou os Jabac como os definia Resnais – tinham já adaptado ao cinema duas peças teatrais que tinham escrito e representado juntos em palco, Cuisine et dépendances (filmada por Philippe Muyl em 1993) e Un air de famille (filmada por Cédric Klapisch em 1996). Depois de Resnais, Bacri interpretou e co-escreveu o argumento dos cinco filmes dirigidos até agora por Jaoui: O Gosto dos Outros (2000), Olhem para Mim (2004), Deixa Chover (2008), E Viveram Felizes para Sempre…? (2013) e Na Praça Pública (2018). 

Conhecido pelas suas personagens resmungonas e teimosas mas de grande coração, o veterano dos palcos e dos ecrãs gauleses sofria de cancro. Nascido em 1951 em Castiglione, na Argélia, Jean-Pierre Bacri foi com a família para França aos 11 anos, instalando-se em Cannes, e só aos 23 anos assumiu o seu desejo de ser actor, “subindo” a Paris e estudando representação enquanto ganhava a vida como arrumador no Olympia. 

Estreou-se em palco em 1977 e no cinema em 1979, num pequeno papel de Amor Ameaçado de Pierre Granier-Deferre, mas foi com o filme O Dia do Perdão (1981), de Alexandre Arcady. que se tornou conhecido. Bacri foi rodando com Jean-Pierre Mocky, Jacques Deray, Claude Lelouch ou Luc Besson em papéis secundários, mas foi preciso o seu encontro com Jaoui para subir à “primeira divisão”. 

O casal conheceu-se em 1987, em palco, numa produção de O Aniversário de Harold Pinter encenada por Jean-Michel Ribes; estiveram juntos entre 1987 e 2012, mas continuaram amigos para lá da separação. Em entrevista publicada no jornal Le Monde poucos dias antes da morte do actor, Agnès Jaoui falava dele como a sua “alma gémea”: “Alguém que expressava aquilo que eu sentia sem nunca mo ter formulado

Juntos, venceram por quatro vezes o César (Óscar francês) de melhor argumento (por Fumar/Não FumarÉ Sempre a Mesma CantigaUn Air de famille e O Gosto dos Outros), para além de terem vencido o prémio de melhor argumento em Cannes por Olhem para Mim

A carreira de Bacri, contudo, nunca se ficou pelos filmes feitos com Agnès. Para lá do César de melhor secundário que recebeu por É Sempre a Mesma CantigaBacri teve papéis principais em filmes de Alain Chabat (Didier, 1997), Nicole Garcia (Place Vendôme, 1998, e Selon Charlie, 2006) ou Claude Berri (Une Femme de ménage, 2002). O seu último grande papel principal no cinema foi em O Espírito da Festa (2017) de Olivier Nakache e Éric Toledano. Os seus últimos filmes foram Na Praça Pública, e Retrato de Família (2018) de Cécilia Rouaud.