Opositor russo Navalny detido à chegada a Moscovo

Crítico de Putin deixou a capital alemã para regressar à Rússia depois de ter sido alvo de envenenamento em Agosto. “Que mal me poderá acontecer?”, perguntou antes de aterrar.

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Navalny e a mulher, saem do avião à chegada a Moscovo. Um pouco mais tarde, ele seria detido,Navalny e a mulher, saem do avião à chegada a Moscovo. Um pouco mais tarde, ele seria detido Reuters/,Reuters/
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Alexei Navalny no avião que o levou de Berlim a Moscovo Reuters

Alexei Navalny, crítico do Kremlin envenenado em Agosto do ano passado, foi detido depois de aterrar este domingo no aeroporto Sheremetyevo em Moscovo. Antes, o seu voo tinha sido desviado do aeroporto de Vnukovo, também na capital, onde deveria ter aterrado e onde centenas de apoiantes o esperavam apesar das temperaturas negativas (-22ºC) e mais de 4500 casos de infecção de coronavírus na capital russa​.

A polícia fez várias detenções entre a multidão no terminal, sob cânticos de “A Rússia será livre!” e “Navalny! Navalny!” A ideia de desviar o voo da Pobeda, detida pela companhia aérea estatal Aeroflot, foi um aparente esforço das autoridades para evitar que falasse aos apoiantes ou com jornalistas.

Já na chegada a Sheremetyevo, Navalny viu negada a entrada na Rússia e foi detido, estando numa “terra de ninguém”, diz a correspondente da Reuters. A sua mulher, Yulia, o seu porta-voz, e o seu advogado, com quem viajava, ficaram do lado russo do aeroporto. 

Muito pouco depois da detenção, a Estónia, a Letónia e a Lituânia apelaram à “imposição de medidas restritivas” contra a Rússia. “A detenção de Alexei Navalny pelas autoridades russas é totalmente inaceitável”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Gabrielius Landsbergis, no Twitter. “Exigimos a sua libertação imediata.”

A União Europeia “deve agir com rapidez”, disse ainda o ministro lituano. Caso Navalny não seja libertado, a UE deve “considerar a imposição de medidas restritiva em resposta a esta acção flagrante”.​

Navalny regressava pela primeira vez desde uma tentativa de envenenamento a 20 de Agosto: sentiu-se mal durante um voo de regresso a Moscovo e foi levado para um hospital em Omsk, na Sibéria. Depois de intensos esforços e perante uma inicial recusa do hospital de o deixar sair, foi transferido para o Hospital Charité, em Berlim. Teve alta um mês depois.

Os médicos que o trataram publicaram um artigo na revista The Lancet demonstrando como foi envenenado com o agente novichok, já usado no caso do ex-espião duplo Sergei Skripal, envenenado em 2018. É um agente que é apenas produzido na Rússia.

“Tenho todo o direito de voltar”

Antes, o opositor dissera a jornalistas que “este é o melhor momento dos últimos cinco meses”, depois de ter embarcado de Berlim para Moscovo, conta a agência Reuters. “Finalmente, vou para a minha cidade natal.”

Navalny tinha também declarado que não acreditava na hipótese de vir a ser preso. “Do que tenho de ter medo? Que mal me pode acontecer na Rússia?”, perguntou. “Sinto-me um cidadão da Rússia que tem todo o direito de voltar.”

O activista anunciou a decisão de regressar à Rússia na quarta-feira. Um dia depois, o serviço de prisões russo disse que faria tudo para o prender assim que regressasse, sob uma acusação de violação dos termos de uma pena de prisão suspensa, por fraude, num caso de 2014 que Navalny diz ser uma fabricação contra si.

As autoridades dizem que Navalny ficará detido preventivamente até que um tribunal confirme, no final deste mês, se uma pena suspensa de três anos e meio de prisão será convertida numa pena de prisão efectiva. Desde 2011, Navalny foi preso mais de dez vezes e passou centenas de dias detido.

A tentativa de envenenamento ocorreu durante uma viagem à Sibéria em que Navalny e a sua equipa preparavam a campanha para as eleições de Setembro, que o opositor esperava conseguir concorrer, embora enfrentasse vários outros processos judiciais vistos como tendo, justamente, o objectivo de o impedir.

Navalny tem sido uma figura especialmente incómoda para o Kremlin, pelas revelações que fez, ao longo dos anos, sobre a corrupção de figuras de topo do regime. O Kremlin refere-se a ele evitando usar o seu nome, dizendo “um blogger” ou “o paciente de Berlim”.