José Feijó leva-nos numa viagem desde Darwin até ao SARS-CoV-2

Conversámos com o biólogo José Feijó sobre a relevância das ideias de Charles Darwin e, a propósito de evolução, falámos das transformações do vírus SARS-CoV-2, um tema em foco por causa das novas variantes que têm surgido.

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José Feijó no seu antigo gabinete no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras Roberto Keller

O convidado desta semana do podcast “Assim Fala a Ciência” é José Feijó, professor e investigador em biologia de plantas na Universidade do Maryland, nos Estados Unidos, onde está desde 2013. Fez o doutoramento em biologia celular na Universidade de Lisboa, tendo sido professor nessa universidade e investigador no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras. Foi comissário da exposição “A evolução de Darwin”, apresentada em 2009 na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, por ocasião dos 200 anos do nascimento do naturalista inglês Charles Darwin e dos 150 anos da publicação da sua obra A Origem das Espécies. Essa exposição teve um número recorde de visitantes, mais de 161 mil em Lisboa, tendo sido depois apresentada noutras cidades, em Portugal e no estrangeiro.

Conversámos sobre a relevância das ideias de Charles Darwin, que revolucionou de tal modo o nosso entendimento acerca dos seres vivos que o biólogo ucraniano Theodosius Dobzhansky escreveu, em 1973, que “nada em biologia faz sentido excepto à luz da evolução”. O impacto da obra de Darwin não se restringiu à biologia, pois encontrou ecos na cultura e na sociedade.

No entanto, algumas transposições da ideia da selecção natural para áreas fora da biologia foram abusivas e inaceitáveis do ponto de vista ético, muitas vezes baseadas numa frase que Darwin nunca disse, a ideia da “sobrevivência do mais apto” (do ponto de vista biológico, os indivíduos com maior sucesso são simplesmente os que têm mais filhos). Um exemplo bem marcante, pela negativa, é o darwinismo social, surgido no final do século XIX, que serviu de justificação para ideologias eugénicas, racistas e fascistas.

No plano religioso, a obra de Darwin gerou uma clivagem que ainda persiste acerca do lugar dos seres humanos no mundo e acerca de Deus e das religiões. Em 1996, o Papa João Paulo II tentou reconciliar a Igreja Católica com a teoria da evolução, tendo afirmado, num discurso na Academia Pontifícia das Ciências, que existe uma “descontinuidade ontológica” entre os macacos antecessores e o homem moderno, ou seja, que houve um momento em que Deus introduziu a alma humana num animal. Estará a Igreja Católica realmente reconciliada com a evolução? E as outras confissões religiosas?

De acordo com um estudo de opinião feito em 2019 nos Estados Unidos, 40% dos americanos acreditam que Deus criou os seres humanos na sua forma actual e 33% consideram que os seres humanos evoluíram, mas que esse processo foi guiado por Deus. Apenas 22% aceitam que os humanos evoluíram sem intervenção divina. Será este um caso particular dos Estados Unidos?

A propósito de evolução, falámos também das transformações do vírus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2, um tema que tem estado em foco por causa das novas variantes que têm vindo a surgir, com impacto na transmissibilidade da doença.

“Assim Fala a Ciência” é um podcast quinzenal do PÚBLICO, aos sábados, que tem o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos e que co-organizo com Carlos Fiolhais, professor de física da Universidade de Coimbra. Temos falado com cientistas portugueses no mundo, procurando difundir o conhecimento científico e combater a desinformação.

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Este programa tem o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos.