Confinamento: estudo propõe “receita” para salvar vidas sem matar a economia

Trabalho da consultora PSE, especializada em ciências de dados, concluiu que há uma combinação de medidas que garante “uma eficácia máxima” com o difícil equilíbrio entre restrições da mobilidade, controlo da pandemia e protecção da economia.

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O incentivo de aulas online para alunos no 3º ciclo e acima disso, a limitação da lotação dos transportes públicos e o reforço da oferta, restrições horárias das compras por segmentos etários e a manutenção (obrigatória) do teletrabalho são as quatro medidas que segundo a consultora PSE, especializada em ciência de dados, serão capazes de garantir uma eficácia máxima, com o mínimo de danos. O trabalho apresenta várias simulações combinando diferentes cenários para identificar um “pacote” de medidas que garante o mínimo impacto na economia e a máxima eficácia no controlo da pandemia, a partir de uma análise dos padrões de mobilidade da população portuguesa.

Os portugueses cumprem. Quando lhes são impostas medidas, os portugueses são exemplares. O mesmo vale para quando não há medidas, aí também aproveitam”, avalia Nuno Santos, director da PSE e um dos autores do estudo “Mobilidade, Pandemia, Economia – Impactos e Efeitos Multiplicadores”.

Desde o início da pandemia que a empresa especializada em ciência de dados segue a par e passo o rasto da mobilidade da população portuguesa, procurando avaliar o impacto das várias medidas restritivas em vigor em diferentes alturas. Com dados sobre o chamado stock de população que anda nas ruas a todas as horas do dia, a análise dos movimentos dos portugueses permite não só saber quantos se movimentam, mas também a que horas e a que grupos etários pertencem. Os dados servem muitos estudos e um deles, concluído recentemente, apresenta simulações de várias medidas para o controlo da pandemia, mas com a preocupação de ter o mínimo impacto possível na economia.

O estudo constata que obviamente a maneira mais eficaz de controlar o número de contactos e contágios – e, dessa forma, reduzir o número de novos casos – seria através de um lockdown total. No entanto, como já se sabe, a medida extrema de simplesmente “mandar toda a gente para casa” teria consequências sociais e económicas devastadoras.

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As medidas em cima da mesa

O estudo analisa assim outras possíveis medidas – umas que seriam mais exequíveis e fáceis de aplicar, outras mais complexas – como: o “trabalho alternado para 50% da população com rotatividade”; o “confinamento total apenas para concelhos em pior situação”; aulas online obrigatórias para o terceiro ciclo e acima disso até ao fim do ano lectivo; a imposição de “bolhas sanitárias” em concelho com risco muito elevado e extremo; o recolhimento às 13h ao fim-de-semana durante quatro semanas; o teletrabalho obrigatório; limitações nos horários do comércio a partir das 15h durante quatro semanas, encerramento de centros comerciais; limitação da lotação para transportes para um quarto ou um quinto da capacidade durante três a quatro meses; fecho de restaurantes e locais de convício durante quatro semanas; e ainda restrições horárias de compras para grupos etários em vigor por quatro a oito semanas.

Para a “aplicação da mobilidade observada a um modelo epidémico”, que incluiu as variáveis de pessoas susceptíveis, de quarentena, de pessoas expostas, pessoas em isolamento, de pessoas infecciosas e população recuperada, os autores do estudo referem que a mobilidade explica 99,5% da expansão territorial da pandemia em Portugal. “Se o número de casos suspeitos de infecção pela mobilidade individual aumentar 1%, o número de infecções aumenta em média 0,53%, o que é consistente com a relação espacial da incidência”, acrescentam. Outras contas que incluem outras variáveis como o índice do volume de negócio industrial e comercial e de procura externa, mercados internos e emprego, serviram para o cálculo do impacto na economia.

Numa leitura rápida, o estudo conclui ainda que “existe um conjunto de medidas que minimizam o impacto na economia e maximizam o impacto no controlo da pandemia, ou seja, têm um baixo impacto na economia e um médio impacto no controlo da pandemia como as aulas online, lotação dos transportes, restrições horárias nas compras e teletrabalho”. Por outro lado, medidas como lockdown total, confinamento em concelhos extremos e trabalho alternado são consideradas medidas que “têm um elevado impacto no controlo da pandemia, mas por outro lado têm igualmente um elevado impacto na economia”.

A combinação “ideal”

O equilíbrio possível neste complexo jogo de forças em que se tenta salvar vidas sem matar a economia do país, está assim numa combinação. E é assim que o estudo encontra uma receita “ideal” de medidas com eficácia máxima. “Dado o nível de incidência presente, bem como a contracção económica e os perfis demográficos e comportamentais dos portugueses de mobilidade e da sua evolução positiva à adesão às restrições, os estudos de simulação orientam para a tomada de medidas de mínimo impacto na economia e máxima eficácia no controlo da pandemia”, conclui o trabalho, lembrando assim que a “melhor combinação” inclui: o incentivo de aulas online, a limitação da lotação dos transportes públicos e o reforço da oferta, restrições horárias nas compras por segmentos etários e a manutenção (obrigatória) do teletrabalho.

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Nelson Garrido

Na lista de medidas simuladas, há restrições que já estiveram em vigor em Portugal e outras que, segundo Nuno Sousa, serão inspiradas em experiências feitas noutros países, como é o caso restrições horárias nas compras por segmentos etários. O director da PSE admite que esta medida que prevê “a imposição de alternância de grupos populacionais para compras, ou seja, por exemplo, apenas permitir compras para maiores de 65 anos durante os períodos da manhã” é uma proposta “ilustrativa”, mas que é baseada nos conhecidos padrões de mobilidade da população.

Transportes públicos e escolas

Os autores apresentam ainda algumas conclusões sobre o impacto de algumas medidas específicas. Assim, a análise terá permitido quantificar que “os transportes públicos são responsáveis por cerca de 10% da incidência”.

Por outro lado, especificamente sobre as questões da educação, o estudo da PSE reconhece que “o ensino presencial é essencial em todos os níveis de ensino”, mas considera que “torna-se imprescindível para os 1.º e 2.º ciclos”. “Actualmente em Portugal, a população de alunos e docentes no 3º ciclo ou superiores representa 12,2% da população [no total, alunos e docentes, são mais de um milhão e 200 mil pessoas]. Trata-se de uma ‘fatia’ significativa da população inactiva (25% da população inactiva)”, referem, lembrando que “para uma visão integral do stock ‘inevitável’ de mobilidade, é fundamental compreender que actualmente a população activa corresponde a cerca de 51% da população, sendo que desta, cerca de um quinto (quase um milhão e cem mil pessoas) têm possibilidade de desempenhar as suas funções em trabalho remoto ou teletrabalho”. E concluem: “Esta visão permite identificar um segmento populacional de cerca de quatro milhões de pessoas que, sem que sejam encerradas actividades económicas, têm necessariamente de efectuar deslocações”.

Nuno Sousa insiste ainda em lembrar que os dados de mobilidade de Novembro e Dezembro já tinham demonstrado que, quando são decretadas “medidas pontuais, episódicas” como as restrições de fim-de-semana até às 13h, os portugueses mostram uma elevada taxa de cumprimento, mas essas medidas são claramente ineficazes. “O que é pontual não tem impacto, as medidas devem ser duradouras para controlar o stock de mobilidade”, avisa notando que é preciso também tentar garantir o “equilíbrio da pandemia e da economia” e optar por medidas concretas que comprovadamente tenham o impacto desejado. O estudo da PSE será, assim, um contributo importante para a difícil discussão que envolve todos os portugueses nos últimos tempos.

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