Na corrida a Capital Europeia da Cultura, Oeiras leva toda a Grande Lisboa

Município apresenta um programa de empreitadas e programação cultural para os próximos seis anos que, acredita o comissário Barreto Xavier, vai transformar o concelho.

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Jorge Barreto Xavier é o comissário da candidatura oeirense NUNO FERREIRA SANTOS

A geografia coloca Oeiras entre Lisboa, Cascais e o Tejo, mas Oeiras quer que a cultura coloque o concelho ao leme da Grande Lisboa. Na candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, que esta quinta será lançada, o município apresenta-se como único candidato da Área Metropolitana de Lisboa e conta com o apoio dos concelhos vizinhos.

“É uma candidatura local, mas metropolitana. Temos a noção de que esta proposta serve a riqueza do país”, diz Jorge Barreto Xavier. O comissário de Oeiras 27 está convicto que o facto de ter já o apoio formal de Cascais, Mafra, Lisboa, Sintra, Amadora e Almada fortalece esta candidatura e diz que, mesmo que Oeiras não seja escolhida para capital europeia, o programa é para cumprir.

Em 2027 Portugal voltará a ter uma Capital Europeia da Cultura e há dez cidades que já anunciaram intenção de se candidatar. O caso de Oeiras é particular, pois ao contrário de Aveiro, Braga, Guarda, Coimbra, Évora, Faro, Leiria, Funchal e Viana do Castelo, não é propriamente uma cidade compacta. É por isso, diz Barreto Xavier, que além de se querer posicionar para fora, a candidatura é uma oportunidade para olhar para dentro.

“Aquilo a que Oeiras se propõe agora é olhar para os 46 quilómetros quadrados do concelho de uma forma integrada, olhar para o conjunto e pensá-lo como uma cidade, usar a cultura como cimento desta cidade. Se nós temos uma cidade polinucleada no coração da zona mais rica do país, estamos a cimentar toda a área metropolitana”, defende.

O comissário, que foi secretário de Estado da Cultura no Governo de Passos Coelho e é director municipal de Educação, Desenvolvimento Social e Cultura desde 2019 por convite de Isaltino Morais, lamenta que “o tribalismo” tenha tomado conta das relações urbanas. “Nós vivemos um momento dificílimo, em que as comunidades urbanas deixaram de ser comunidade para passarem a ser tribos. A cultura é uma espécie de soft power, pode ser um elemento de agregação.”

O programa para os próximos seis anos está assente em cinco eixos e compõe-se de programação cultural e empreitadas. Sobre as obras físicas o comissário não adianta grandes pormenores, porque elas serão individualmente lançadas nos próximos meses.

Mas algumas coisas estão já assentes. O antigo Convento da Cartuxa, em Caxias, que o Estado vai ceder à autarquia, tornar-se-á num centro de arte contemporânea. Em Linda-a-Velha será criado um centro cultural no espaço do antigo quartel e, diz Barreto Xavier, terá “a melhor sala de espectáculos do país”. O Palácio do Marquês de Pombal, no centro da vila de Oeiras e actualmente em obras, vai ser musealizado e terá um projecto ligado à arte, à ciência e à tecnologia. A bateria do Areeiro, uma fortificação junto à praia de Santo Amaro, também vai ser um museu.

“Oeiras tem o maior número de fortificações marítimas do mundo”, refere o comissário. Um dos eixos do programa é dedicado a esse património e assume-se o objectivo de “musealização da Barra do Tejo”, alargando-a também a Almada e Cascais.

Outro eixo é o da poesia e da língua portuguesa. Oeiras tem há anos um Parque dos Poetas e mais recentemente construiu lá dentro um Templo da Poesia que não tem tido muita utilização. “Falta programação”, reconhece Barreto Xavier, adiantando que haverá “manifestações concretas já este ano”. Associada ao eixo das heranças culturais está uma intervenção na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, e ao das artes e da criatividade está a reabilitação da Quinta da Graça, na Cruz Quebrada, que receberá um projecto ligado à dança.

Mas as empreitadas de maior vulto estão associadas ao eixo “Oeiras, ecossistema urbano” e correspondem a uma promessa eleitoral que Isaltino fez em 2017: a construção de novas praças em cada freguesia. O autarca já tinha dito ao PÚBLICO que pretendia que estes novos espaços públicos fossem tecnológicos, permitindo a sua interligação em simultâneo e a realização de eventos. Barreto Xavier diz que esta é a chave para a tal cidade polinucleada que se pretende. Em ano de eleições autárquicas, ainda nenhuma das praças imaginadas saiu do papel. A intervenção junto ao Mercado de Algés, onde a câmara quer criar as chamadas Portas de Algés, mereceu uma reunião entre vários arquitectos no início de 2020, mas ainda não se conhecem detalhes do que para ali está planeado.

Jorge Barreto Xavier garante que o município tem verbas suficientes para fazer tudo a que se propõe, mesmo que no fim do processo – lá para Dezembro de 2022 – a cidade escolhida para Capital Europeia da Cultura seja outra – e que, com isso, se esfumem os milhões que a distinção acarreta. A crise da pandemia não veio baralhar as contas? “Os impactos não são suficientemente graves para impedir Oeiras de seguir o seu ciclo de desenvolvimento”, responde.