O Cerejal de Sandra Faleiro, uma tragicomédia diante do abismo

Estreada no Teatro São Luiz nas vésperas do anunciado confinamento geral, esta é uma encenação da última peça de Tchékhov que a coloca entre Fellini e Beckett, e se abre para um retrato do próprio teatro.

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O abismo agora muito real da plateia vazia é uma das imagens mais fortes desta versão de O Cerejal ESTELLE VALENTE

Há dez anos que a actriz e encenadora Sandra Faleiro sonhava com o dia em que subiria a palco para mostrar a sua visão de O Cerejal, uma das peças maiores do dramaturgo russo Anton Tchékhov. De início, a sua atracção pelo texto que Constantin Stanislavski estreou em 1904 tinha contornos mais intuitivos e abstractos, embora soubesse que no teatro tchékhoviano lhe interessava “a morte sempre latente, a perda, o sonho por realizar, o amor e ao mesmo tempo os seus desencontros, e o facto de haver sempre pequenas comunidades de pessoas que, no entanto, não impedem que cada personagem seja uma ilha”. Tal atracção por uma peça de características algo difusas, diz ao PÚBLICO, prendia-se também com uma “menor experiência de vida, menos desgostos e um lado mais ingénuo” que, entretanto, deram lugar a uma perspectiva bastante mais concreta daquilo que a peça exige do seu olhar. Agora que o dia de subir ao palco com O Cerejal chegou por fim, Sandra Faleiro vê-se porém diante de outro abismo – aberto pela ameaça de um novo confinamento terminar a carreira do espectáculo logo após a estreia.