EUA: designar houthis como “organização terrorista” é “sentença de morte para milhares de iemenitas”

Para as organizações humanitárias, a decisão da Administração Trump, que visa atingir o Irão, é “vandalismo diplomático”. ONU avisa que “terá graves repercussões políticas e humanitárias”. Crise humanitária no Iémen é a pior do mundo.

Foto
Distribuição de ajuda por um grupo humanitário local, Mona Relief, na cidade de Hudheida, no mar Vermelho YAHYA ARHAB/EPA

Congressistas e senadores americanos já começaram a pedir ao Presidente eleito, Joe Biden, para reverter a decisão da Administração de Donald Trump, que designou os rebeldes houthis iemenitas como uma “organização terrorista estrangeira”. Para o senador democrata Chris Murphy, que tentou fazer aprovar legislação para forçar os Estados Unidos a deixar de apoiar a Arábia Saudita, que os houthis combatem, a medida “é uma sentença de morte para milhares de iemenitas”.

“Vai travar a chegada de ajuda humanitária, tornar negociações de paz quase impossíveis e fortalecer o Irão. Biden deve reverter esta política no dia 1” do seu mandato, afirmou Murphy. A Casa Branca justifica a decisão como parte da sua política de “pressão máxima” sobre o Irão, acusado de apoiar o grupo iemenita na guerra civil que só se tornou mais mortífera desde que os sauditas decidiram envolver-se, à frente de uma coligação regional, em 2015.

O retrato do senador do Connecticut é esmagador mas nem por isso pouco realista. Na prática, a classificação dos houthis como terroristas pelo Departamento de Estado pode provocar o fim da ajuda das agências das Nações Unidas nas zonas controladas pelo grupo rebeldes, uma parte do Iémen onde vive 70% da população. A partir de agora, qualquer pessoa ou organização que tente enviar ajuda para estas regiões pode ser considerada cúmplice de terroristas e arrisca-se a ser julgada por isso nos EUA.

A ONU avisa que a medida “terá provavelmente graves repercussões políticas e humanitárias” e deverá ter “um impacto negativo nos esforços para relançar o processo político no Iémen, assim como irá polarizar ainda mais as posições das várias partes no conflito”.

Com o país mergulhado na pior crise humanitária do mundo, a ONU diz que quase 80% dos 28 milhões de iemenitas dependem de ajuda para sobreviver e mais de 13 milhões estão em risco de morrer à fome. Actualmente, a distribuição de ajuda já é muito dificultada pelos combates.

O senador republicano Todd Young também criticou a decisão, que foi oficializada na segunda-feira, e disse que espera trabalhar com Biden e com a sua equipa para “anular esta decisão equivocada”. Mas mesmo que o novo Presidente reverta a classificação logo depois de tomar posse, a 20 de Janeiro, o que não é certo, o processo é longo e já terão sido causados danos.

No fim de Dezembro, 20 antigos diplomatas norte-americanos especializados no Médio Oriente assinaram uma carta dirigida ao secretário de Estado, Mike Pompeo, tentando dissuadir a Administração de avançar. Muitas organizações humanitárias e think tanks fizeram os possíveis para tentar explicar as consequências da decisão, como recorda agora, numa série de tweets, Peter Salisbury, analista no International Crisis Group, defendendo que a designação faz pouco para travar as actividades dos houthis e se arrisca a ser uma “punição colectiva” para os iemenitas.

O ICG, escreve, analisou os argumentos da Administração Trump, nomeadamente a defesa de que as sanções “vão enfraquecer os houthis financeiramente e convencer os seus aliados de que não têm viabilidade”. Mas “a nossa pesquisa e análise sugere o contrário”, indicando que “ao precipitar uma situação de fome”, a medida dos EUA só “vai empurrar os houthis ainda mais para o Irão”.

“A última coisa de que os iemenitas precisam é de mais vandalismo diplomático”, reagiu David Miliband, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico e chefe executivo da ONG International Rescue Committee. “O que é preciso é o contrário – pressão sobre todas as partes do conflito para que deixem de usar os civis como reféns dos seus jogos de guerra.”

Quando Riad decidiu intervir no conflito iemenita – que opunha militares e milícias leais ao Presidente Abd Mansour Hadi aos grupos que combatem em nome dos rebeldes xiitas houthis –, Barack Obama aceitou fornecer “apoio logístico e partilhar informações dos serviços secretos. Entretanto, armas e tecnologia vendida pelos EUA (mas também pelo Reino Unido e outros países europeus) já foram usadas pelos sauditas ou pelos Emirados Árabes Unidos em ataques que mataram milhares de civis iemenitas.