Um Presidente de direita e em segundo um candidato de extrema-direita?

Que é preciso fazer para impedir que a extrema direita fique em segundo lugar? Que cada candidato ou candidata assuma a responsabilidade. O Chega e o Sr. Ventura estão à esquina de dentes afiados. Ventura já disse o que queria. Quem não o ouviu?

Se Marcelo for o eleito e se André Ventura ficar em segundo lugar haverá uma nova situação política. O Chega é um partido que quer destruir (declara-o) o sistema saído da revolução e plasmado na Constituição aprovada por todos os partidos, menos o CDS.

Marcelo tem afirmado nos debates ser da direita social. André Ventura tem repetido à saciedade que pretende destruir tudo o que se fez nos últimos 46 anos. Por isso, não se estranha que tenha aparecido com Marine Le Pen de braço dado em 8 de janeiro em campanha eleitoral. Quer mesmo aparecer como é, chefe do partido irmão da Frente Nacional.

Ventura gaba-se do seu ódio aos mais desfavorecidos desde os precários aos desempregados, aos trabalhadores, aos migrantes, aos ciganos, aos que vivem nos bairros sociais, a quem vive do seu labor. Bajula os multibilionários que na sombra manejam os cordelinhos. Ventura anuncia com grande clamor vontade de arrasar o que o 25 de Abril moldou na nossa vida coletiva. É testa de ferro de um setor da burguesia compradora que disputa com outro setor da burguesia o poder para alterar as regras e abocanhar riquezas que estão no setor público e criar outras condições para outros voos e grandes negócios, eventualmente mudar de mandarins externos.

Pretende arrebanhar os diversos descontentamentos de camadas desprezadas ou fustigadas pelos dramas sociais e através de uma linguagem boçal tentar junto dessas camadas procurar o que de mais primitivo está em todos os seres humanos. Acena com o mais primário, com o que sai sem qualquer travão, isto é, a vulgaridade. Serve-se da superfície e esconde onde assentam os problemas e dispara. Anuncia a destruição do mal, como se fosse um pregador, quase um evangélico. Daí o seu sistemático ataque ao Papa Francisco. Prega como na Idade Média a violência para exorcizar o Mal e impor o seu Bem. Não anuncia a fogueira, apenas a prisão perpétua e a castração química. E penas, mais penas, escondendo que os países com medidas penais mais pesadas não resolveram os problemas da criminalidade e são os que têm maior índice de criminalidade violenta.

Ele não quer ser o Presidente de todos os portugueses, apenas o dos nababos dispostos a fazer dos outros uma espécie de servos modernos recebendo o que lhes quisessem pagar. Querem o país só para eles, desde as escolas aos hospitais passando pelo próprio ar que respiramos. Querem a rédea solta.

Nesta conceção, governar não é a arte do compromisso, mas sim a violência da força do Estado contra os outros à boa maneira de Trump.

Se André Ventura ficar em segundo lugar seguramente que irá ter mais força para avançar com o seu projeto. Já chegaram ao governo nos Açores. Querem agora ganhar força e cercar o PSD para lhe impor acordos em que importantes ministérios ficariam nas suas mãos. Animado pelas vitórias de Bolsonaro, Trump e pelo avanço da extrema-direita, Ventura sente-se embalado.

Os democratas não podem fazer de conta que não sabem o que aconteceu no Brasil e nos EUA. Os resultados estão à vista. Trump incitou à invasão do Capitólio. Depois do fiasco condenou. Ventura, que se gabava de ser uma espécie de gauleiter de Trump, tendo sabujado um convite para a Convenção Republicana, também condenou, noblesse oblige . O seu ídolo já “condenara”.

Ventura segue na mesma senda. Vai aos debates para “arrasar”, deve ser de ter sido comentador de futebol. Debater consiste em pegar numa fotocópia, exibi-la e está feita a prova que o adversário é um destruidor e um aniquilador da economia. Sente-se no seu olhar aquela mistura de subserviência aos de cima e de crueldade para os outros, sobretudo para os mais desfavorecidos, culpando-os por serem o que são, como se estivesse apenas na sua mão o seu destino social.

As sondagens dão a Marcelo a vitória. E se assim for é de crer que as esquerdas maioritárias no país permitam que o cargo mais alto da nação seja da direita. E o lugar da extrema direita? Que cada candidato analise o que está em cima da mesa. O PS estendeu a passadeira ao candidato da direita. O BE e o PCP estão a medir forças. Que é preciso fazer para impedir que a extrema direita fique em segundo lugar? Que cada candidato ou candidata assuma a responsabilidade. O Chega e o Sr. Ventura estão à esquina de dentes afiados. Ventura já disse o que queria. Quem não o ouviu?

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico