As presidenciais são mesmo importantes

Está em jogo a importância de derrotar o candidato de extrema-direita e a possibilidade de se retomar a política de convergência entre PS, BE, PCP e Verdes.

Embora segundo todas as previsões o vencedor das eleições presidenciais que se vão realizar no próximo dia 24 de Janeiro já seja conhecido, elas não serão menos relevantes, tendo em conta que está em jogo a importância de derrotar o candidato de extrema-direita e a possibilidade de se retomar a política de convergência entre PS, BE, PCP e Verdes. Estes são os impactos que mais interessam, dadas as circunstâncias, e que poderão inaugurar uma nova relação política entre aqueles partidos, cujos resultados anteriores foram sentidos e julgados benéficos por larga maioria dos portugueses. O que se seguiu, com as eleições legislativas de 2019, é conhecido, embora ainda faltem três anos para sabermos como pode ser concertado o erro político que se cometeu naquela altura e qual será o desfecho final do mandato.

É inquestionável que a actual situação sanitária do país teve como efeito criar uma cortina que impediu mostrar em toda a sua extensão as consequências sociais dessa ruptura. Mas para quem esteve atento à estagnação em que o país, entretanto, caiu durante o primeiro ano de mandato deste governo, pode considerar que os efeitos da pandemia na vida das populações podiam ter sido bem menores do que estão a ser, embora eles viessem sempre a fazer-se sentir. Trata-se da escala desses efeitos e dos grupos populacionais onde eles são mais negativos. Com uma solução equivalente à de 2015, as medidas adoptadas durante 2020 teriam seguramente sido outras, com consequências menos gravosas. Viu-se, aliás, como o país, depois de um período em que a palavra de ordem do governo do PSD e CDS liderado por Passos Coelho era austeridade, mais austeridade, toda a austeridade, começou a recuperar de um dos períodos mais negros da nossa história recente. Houve quem lhe tivesse chamado um milagre, mas deste fenómeno nada teve, tratou-se antes da aplicação de soluções que foram ao encontro das necessidades de quem mais carecia delas.

A ter-se verificado a continuação e o aprofundamento da solução política de 2015, provavelmente não estaríamos a braços com um candidato da extrema-direita, para não ir mais longe no qualificativo. É que o surgimento, com a expressão que está a ter, de candidatos que se situam neste extremo do espectro político não crescem e se desenvolvem de um momento para o outro. Há sempre um período de gestação em que são indispensáveis a presença das condições indispensáveis para o ovo se formar. E ele situa-se durante os anos 2011-2015. Eles são a manifestação do descontentamento extremo de sectores sociais que durante aquele período viram as suas condições de vida deteriorar-se tanto, ao ponto de terem adoptado uma escapatória política no candidato da extrema-direita quando ele apareceu. Não é seguramente por acaso que poucas ou nenhumas oportunidades teve para eclodir, desenvolver-se e ter visibilidade pública durante o período 2015-2019. Sendo verdade que a pandemia tem servido de argumento para não se tomarem medidas mais ousadas no plano social, é também verdade que constituiu um grave erro político ter-se afunilado a governação no combate a esta doença. A partir de Março de 2019, a política desapareceu praticamente da vida pública, sendo ocupada por quem espreitava uma oportunidade para aproveitar a primeira oportunidade e saber afirmar-se.

Um aspecto que não deve ser subestimado é a magnitude da votação no candidato Marcelo Rebelo de Sousa, partindo-se do princípio de que será ele o vencedor destas eleições. Será diferente para a estabilidade política durante os próximos três anos ele ter uma votação esmagadora ou uma votação que o coloque na defensiva quanto à intromissão na condução dos assuntos que só ao Governo dizem respeito. No primeiro caso teríamos um Presidente que não resistiria à tentação de atrair o seu partido, o PSD, para a área do poder. No segundo caso, essa tentação seria praticamente nula, e António Costa veria o caminho facilitado para entendimentos à esquerda, se fosse o caso de essa possibilidade se verificar.

Por estas razões é que as eleições de 24 de Janeiro de 2021 são particularmente importantes. Porque será a ordenação dos resultados obtidos pelos candidatos que poderá contribuir para que os restantes três anos que faltam para cumprir a legislatura possam ser diferentes e melhores do que aquele que se tem verificado. São esses resultados que poderão fazer recuar o perigo que representa tanto o candidato de extrema-direita como o partido que representa. Além disso, e não menos importante, esses resultados poderão vir a representar um argumento decisivo para que o PS reconsidere a decisão que tomou em 2019. Porque sem a mobilização das camadas sociais que apoiaram a solução de 2015 não se tornará possível chegar a 2023 com um país à altura das expectativas dos portugueses. Se o PS tem a obrigação de reconhecer que cometeu um erro de avaliação naquele ano, o eleitorado deve também reconhecer que o seu voto é aquele que mais pode contribuir para derrotar o candidato da extrema-direita e sairmos do marasmo social em que estamos a viver.